o saber dos antropólogos

O saber que um antropólogo adquire no seu campo reveste dois aspectos: documentação e intuições. O antropólogo transporta na sua bagagem um diário de campo, um ficheiro lingüístico, um herbário, mapas, esboços, fotografias, fitas magnéticas, genealogias, textos, protocolos e blocos cheios de observações rabiscadas sobre os joelhos, na penumbra duma cabana de fumo, encostado ao tronco de uma árvore, durante uma deslocação na floresta, ou à noite, finalmente sozinho, à luz dum candeeiro a petróleo. Nestes documentos trata-se de homens, mulheres, crianças, paliçadas, vizinhança, aldeias, campos, trabalhos agrícolas, técnicas artesanais, cozinha, plantas, animais, mercados, festas, sacrifícios, consultas a advinhos, crises de posse de terras, conflitos, assassínios, vinganças, funerais, assembléias, chefes, antepassados, cantos, sonhos e da razão pela qual as serpentes não tem patas.

Estes documentos heteróclitos são, para o antropólogo, o resultado e testemunho de uma experiência coerente: progressivamente, a sociedade onde viveu tornou-se-lhe familiar, aprendeu a comportar-se e apercebeu-se do que há a ter em conta nela, pôde antecipar as respostas adequadas às perguntas, reconheceu o humor ou a gravidade numa conversa, a ternura ou a frieza dum gesto, riu e chorou com seus anfitriões. Possui, então, um saber intuitivo que lhe permite compreender os documentos que reuniu e situá-los uns em relação aos outros.

É, de qualquer modo, uma aposta o facto de condensar num livro, que se pode ler em algumas horas, uma experiência de vários anos, sem equivalente na vida da maior parte dos leitores. A esta dificuldade inicial acrescentam os antropólogos uma outra, pretendendo que seus trabalhos etnográficos não patenteiem apenas uma experiência de campo, mas também que sirvam de uma base a uma Antropologia comparativa ou geral. Para conciliar estes objetivos, a maior parte dos antropólogos adota, nas monografias, um estilo amenizado de discurso: o documento quase nunca aparece sem tratamento e a especulação teórica é reduzida ao mínimo.

Sperber, Dan.
O saber dos antropólogos. Lisboa: Edições 70.
(pp. 16-17)
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