sexta-feira, 17 de abril de 2015

quem governa a invasão biológica? um problema para a antropologia

clique aqui para acessar a publicação original da Revista Novos Debates.

Câmara Municipal de Santana do Livramento, RS (maio de 2014). Crédito: Caetano Sordi

Caetano Sordi

Mestre e doutorando em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista CNPq

O bioma Pampa, também conhecido como Campos Sulinos ou Campanha, ocupa apenas 2,07% do território nacional, mas possui importantes implicações identitárias para o sul do país. Apropriado economicamente desde fins do século XVI pelo pastoreio extensivo, é também um das paisagens naturais mais ameaçadas do Brasil, pressionado que está pelo torniquete formado pela monocultura de grãos, o reflorestamento industrial, a degradação do solo e outras externalidades negativas da ação antrópica. Apesar da sua riqueza cultural e natural, o bioma pampa é contemplado com apenas uma Unidade de Conservação (UC) Federal, a Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã, localizada entre os municípios de Santana do Livramento, Quaraí, Rosário do Sul e Alegrete, todos eles no Rio Grande do Sul e relativamente dependentes da pecuária de corte. Recentemente, esta APA tem enfrentado um processo de invasão biológica bastante sério, protagonizado por suídeos asselvajados da espécie Sus scrofa scrofa (javali europeu) e seus híbridos com porcos domésticos, conhecidos como javaporcos. 

Embora não se tenha noção clara de como este processo foi desencadeado, se aceita a tese de que ele é fruto de uma combinação entre migração espontânea, contrabando e criação ilegal (Debert e Scherer 2007), favorecido por uma situação de fronteira seca. Espécimes de javali europeu foram trazidos para o Uruguai ainda no início do século XX, encontrando naquele país um ambiente propício para sua dispersão, sem inimigos naturais e com uma grande variedade de recursos para seu abrigo e sobrevivência (Lombardi et al. 2007). Em algum momento das últimas três décadas, espécimes desta linhagem cruzaram a fronteira com o Brasil, colonizando a área onde se encontra a APA do Ibirapuitã. Trago este exemplo específico, que corresponde ao objeto etnográfico da minha pesquisa de doutorado em andamento, para discutir o grave problema da invasão biológica no Brasil, questão ambiental de primeira ordem que, apesar de muito debatida entre biólogos, agrônomos e gestores ambientais, tem despertado pouco interesse dos cientistas sociais brasileiros, salvo algumas exceções (Oliveira e Machado 2009; Bevilaqua 2013).

Dentro da biologia, não há consenso sobre a melhor maneira de se definir a invasão biológica, embora ela seja reconhecida por organismos internacionais como a segunda maior ameaça à biodiversidade do planeta, perdendo apenas para a destruição humana dos ambientes nativos. De acordo com a definição do Ministério do Meio Ambiente, espécies exóticas invasoras são organismos que, “introduzidos fora da sua área de distribuição natural, ameaçam ecossistemas, habitats ou outras espécies” (Brasil 2006: 5). Em si mesma, a migração de espécies biológicas de uma região a outra do globo não é algo nocivo. Ao contrário, a movimentação de organismos é um dos fenômenos que determinaram e continuam a determinar a história e a polivalência da vida na Terra (Crosby 2011; Wilson 2012). No entanto, a intensa mobilidade humana dos últimos quatro séculos acelerou a dispersão de organismos a padrões nunca vistos, alterando em profundidade os ciclos de inúmeros ecossistemas ao redor do globo.

Além do javali europeu, objeto de uma recente Instrução Normativa do IBAMA que permite o seu manejo através de meios cinegéticos (IN 03/2013), outras espécies invasoras emblemáticas no Brasil são o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), a árvore pínus (Pinus sp.) e a abelha-africana (Apis mellifera), introduzida na década de 1950 no interior de São Paulo e hoje dispersa por todo continente americano. No pampa, grassa, desde metade do século passado, o capim-annoni (Eragrostis planaNees), gramínea de origem africana introduzida no Rio Grande do Sul por um pecuarista cujo sobrenome batiza a vulgata da planta. Mais recentemente, o setor agropecuário brasileiro entrou em polvorosa devido à dispersão da lagarta Helicoverpa armigera, responsável por perdas na lavoura de soja.

Alguém poderia se perguntar o que cabe aos antropólogos discutir em relação a este problema, aparentemente tão restrito ao domínio de biólogos, ecólogos, gestores sanitários e ambientais. Um breve recorrido sobre a literatura a respeito do assunto nos fornece algumas pistas: em primeiro lugar, há uma controvérsia sobre o modo com que a comunidade científica vem pensando a invasão biológica, dada a proliferação de metáforas bélicas para se referir a ela (Sagoff 1999; Colautti e Mc Isaac 2004). Há, portanto, uma importante discussão sobre a epistemologia ambiental da invasão biológica, na qual os antropólogos poderiam contribuir.

Em segundo lugar, a invasão biológica coloca problemas políticos que dizem respeito à sobreposição de prerrogativas entre órgãos de distintas áreas e níveis de governo (Oliveira e Machado 2009), o que sugere problemas para a antropologia do Estado e da política. Por fim, uma última questão de antropologia jurídica diz respeito ao monopólio do Estado sobre a gestão do território e seus recursos naturais, visto se tratar de agentes bióticos que circulam à revelia das fronteiras e ordenamentos jurídicos nacionais (Bevilaqua, 2013) e, muitas vezes, da intenção de quem os transporta.

Há, contudo, um ponto bastante importante para a antropologia que o exemplo do javali traz à tona: trata-se da relação entre o doméstico e o selvagem, traduzida pela questão do javaporco. Segundo Digard (2012), o debate ambiental contemporâneo enfatiza pouco a biodiversidade doméstica, considerada pelo autor como importante estoque de recursos genéticos perpetuados pela humanidade ao longo do tempo. Esta negligência com o aspecto doméstico da biodiversidade, segundo Digard, seria fruto de uma construção simbólica de longa duração que associa domesticação com degenerescência, isto é, com uma perda de caracteres vigorosos dos espécimes originais. Ora, uma das principais consternações dos gestores ambientais da APA do Ibirapuitã e das autoridades da região são os cruzamentos entre porcos ferais e porcos domésticos, sejam estes cruzamentos espontâneos ou humanamente induzidos. De fato, as varas de porcos que circulam pelos campos da UC são populações híbridas, o que sugere haver certo comércio reprodutivo entre o Sus scrofa scrofa e o Sus scrofa domesticus. O problema se agrava pelo fato de ambos serem linhagens do mesmo táxon, o Sus scrofa, o que introduz aqui uma confusão classificatória entre o doméstico, o selvagem e o feralizado.

Os cruzamentos seriam favorecidos pela concepção, bastante frequente na região, de que o encontro entre porcos domésticos e porcos ferais tornaria os leitões mais fortes e robustos, aprimorando sua rusticidade, em consonância, portanto, com a percepção de Digard (2012). Ato contínuo, esta tolerância para com a hibridização catalisaria ainda mais o processo de dispersão, agravando a invasão biológica. Da mesma maneira, o cachaço – termo local para o suíno macho não castrado, feral ou domesticado – carrega consigo algumas projeções de masculinidade próprias do ambiente cultural fronteiriço. Jocosamente, atribui-se a estes machos solitários a capacidade de seduzir as porcas domésticas e atraí-las para a vida selvagem, como se fora um andarilho galanteador.

Outra dimensão importante a ser considerada é a prevalência da predação de cordeiros como principal queixa dos produtores rurais contra os javalis nesta região. Os municípios da zona da APA do Ibirapuitã respondem por parte considerável da produção de ovinos no Brasil, que tem na Campanha Gaúcha uma de suas bases mais tradicionais. E, ao contrário de outras zonas afetadas pelo javali, onde predominam os danos à lavoura, o consumo de borregos recém-nascidos é a grande consternação local, o que tem se revertido em frequentes analogias entre o javali e o ladrão de gado, com claras conotações morais.

Durante uma audiência pública sobre a questão dos javalis, na Câmara Municipal de Santana do Livramento, realizada no início de maio de 2014, uma enorme cabeça de javali velava totemicamente pelas manifestações dos oradores, produzindo um impacto visual nada desprezível. Seu abatedor, presente à reunião, relatou que o “bichinho” havia matado, em uma propriedade, setenta cordeiros e cinco ovelhas, número corroborado por outros ovinocultores presentes. Posteriormente, outro ovinocultor, bastante afetado pela “praga”, desfiou-me a lista dos tipos penais que, em sua opinião, poderiam ser imputados ao javali, dentre os quais abigeato e ocultação de cadáver.

Em linhas gerais, a invasão biológica se impõe como um problema importante de ser pensado pelos antropólogos devido às suas reverberações simbólicas, socioeconômicas e políticas, em paralelo à dimensão ambiental. Para uma disciplina cada vez mais acostumada a trabalhar com as noções de fluxoe linha (Ingold 2011), creio que se trata de um campo de estudos bastante profícuo para se pensar as consequências imponderáveis das próprias linhas de comércio e fluxos demográficos que tecemos ao redor do globo, muitas delas carregando componentes impensados ou possivelmente nocivos, como é caso das espécies invasoras.


Referências bibliográficas

BEVILAQUA, Cimea. 2013. “Espécies Invasoras e fronteiras nacionais: uma reflexão sobre os limites do Estado”.  Anthropologicas, 24(1): 104-123.

BRASIL. 2006. Espécies Exóticas Invasoras: Situação Brasileira. Brasília: Ministério do Meio Ambiente/Secretaria de Biodiversidade e Florestas.

COLAUTTI, Robert. MC ISAAC, Hugh. 2004. “A neutral terminology to define ‘invasive’ species”. Diversity and Distributions 10: 135-141.

CROSBY, Alfred W. 2011. Imperialismo ecológico: a expansão biológica da Europa 900-1900. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

DEBERT, André Jean. SCHERER, Scherezino. 2007. “O javali asselvajado: ocorrência e manejo da espécie no Brasil”. Natureza e Conservação, 5(2): 31-44.

DIGARD, Jean-Pierre. 2012. “A biodiversidade doméstica, uma dimensão desconhecida da biodiversidade animal”. In: Anuário Antropológico, 2011(II): 205-226.

INGOLD, Tim. 2011. Being Alive: essays on movement, knowledge and perception. Routledge: Londres.

LOMBARDI, R. BERRINI, R. ACHAVAL,R. WAYSON, C. 2007. El Jabalí en el Uruguay.Montevideo: Centro Interdisciplinario para el Desarollo.

OLIVEIRA, Anderson Eduardo da Silva. MACHADO, Carlos José.  2009. “Quem é quem diante da presença de espécies exóticas no Brasil? Uma leitura do arcabouço legal-institucional voltada para a formulação de uma política pública nacional”. Ambiente e Sociedade, 13(2): 273-387.

SAGOFF, Mark. 1999. “What’s wrong with exotic species?”. Report from the Institute for Philosophy and Public Policy, 19(4): 16-23.

WILSON, Edward O. 2012. Diversidade da vida. São Paulo: Companhia das Letras.

 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Õkãpomaɨ

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Õkãpomaɨ, denominam os Yanomami, são aqueles que desafiam os riscos de uma viagem por caminhos desconhecidos para obter informações estratégicas sobre o inimigo, detectar a sua aproximação e prever eventuais ataques. Na nova luta que se trava na linha de frente do contato com o mundo dos brancos, essa é a estratégia dos Yanomami de hoje para defender o seu território, a maior Terra Indígena do país e uma das maiores áreas de floresta protegida do Brasil.

Em outubro de 2014 uma expedição percorreu mais de 50km na borda leste da Terra Indígena Yanomami, estado de Roraima, buscando sinais de degradação e pressão ambiental promovidas por invasores não-indígenas. A viagem foi composta por oito indígenas Yanomami, dois indigenistas do Instituto Socioambiental (ISA) e dois NINJAS, responsáveis pela documentação e registro da empreitada.

Neste especial criado conjuntamente pela equipe do ISA e do Mídia Ninja você vai encontrar um vídeo inédito, galerias de imagens que mostram o dia a dia da Expedição Õkãpomaɨ, informações atuais sobre o povo Yanomami, além de uma linha da tempo com a história de contato deste povo, histórico das expedições anteriores, e o diário de bordo com relatos dos momentos mais marcantes desta jornada.

http://expedicaoyanomami.socioambiental.org/

sexta-feira, 10 de abril de 2015

bacharelado em antropologia da unb recebe nota máxima

Textos: UnB Agência. Fotos: Isa Lima/UnB Agência.

Ana Beatriz Machado- Da Secretaria de Comunicação da UnB

O Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Brasília conquistou mais uma nota 5 em avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação (MEC). Dessa vez, com o bacharelado em Antropologia. A visita da equipe técnica ocorreu no final de março.

Segundo o professor Guilherme Sá, coordenador da graduação, a avaliação para renovar o reconhecimento do curso promovida pelo MEC é muito abrangente. Contempla questões que vão desde as condições físicas de infraestrutura até a minuciosa análise qualitativa a respeito do conteúdo programático e a qualificação do corpo docente.

O professor explica que o curso de Antropologia é historicamente bem organizado, e isso contribuiu para que alcançasse essa menção. “Temos atualmente uma boa estrutura física, com bons laboratórios de pesquisa, um corpo técnico-administrativo envolvido com as questões do curso, além de um corpo docente qualificado com grande experiência didática e de pesquisa”, afirma.

No final do ano passado, o curso de bacharelado em Ciências Sociais também obteve a nota máxima na mesma análise. “Os cursos vinculados ao ICS são bem avaliados; isso comprova o protagonismo das Ciências Sociais na UnB, uma universidade que nasceu de um compromisso explícito para relacionar a educação às questões e demandas emergentes dos coletivos que compõem o povo brasileiro”, pondera Sá.

O professor ainda ressalta a importância da conquista para o departamento. “O grau máximo concedido ao curso atesta que estamos no caminho certo ao aliar a excelência já notória de nossa pós-graduação à formação de profissionais altamente qualificados egressos de nossa graduação”.

terça-feira, 7 de abril de 2015

fios da vida

imageTodos os anos, adultos procuram os arquivos da Fundação CASA (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente, São Paulo, Brasil) em busca de prontuários referentes ao período em que, quando crianças e/ou adolescentes, passaram por abrigos públicos. O que faz com que esses adultos queiram recuperar os fios de suas vidas? Entre 2009 e 2013, foram analisados mais de 50 prontuários e realizadas entrevistas com alguns homens que estiveram, entre 1947 e 1974, no Instituto Agrícola de Menores de Batatais (IAMB/ SP). Registros; verdades (?); o direito à memória biográfica; histórias de "famílias abandonadas"; relatos de trabalhos e cuidados; laços atuais entre "ex-menores"; um diálogo entre fotos antigas e uma visita às atuais ruínas do IAMB, guiada por um dos entrevistados, compõem este documentário.

Assista aqui ao documentário:

 http://www.lisa.usp.br/producao/paginasvideos/fiosdavida.html

sexta-feira, 3 de abril de 2015

série vídeo aulas Estado e Povos indígenas

“Série de videoaulas produzidas a partir do acervo do curso de formação política de lideranças indígenas, realizado pelo Centro Indígena de Estudos e Pesquisa (Cinep), pelo Laced/Museu Nacional/UFRJ, pela Universidade de Brasília (UnB) e pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IIEB). Destina-se a subsidiar a formação política e intelectual de lideranças, pesquisadores e estudantes indígenas no ensino superior, com vistas a fins práticos e reflexivos. A série procura, para tanto, fornecer ao público indígena um olhar crítico sobre o Brasil e as instituições políticas de países moldados pela colonização europeia. Nossa intenção é que esse olhar seja compatível à perspectiva de seu pertencimento diferenciado ao Estado nacional brasileiro como cidadãos indígenas, e lhes permita criticar e produzir conhecimento alternativo, por meio de seus próprios interesses e processos de pesquisa. ” (LACED)

Série de vídeo aulas para a formação política e jurídica de lideranças, professores e estudantes indígenas:

DVD 1 - Direito Internacional
DVD 2 - Institucionalização da participação e do controle social (comitês, conferências e conselhos)
DVD 3 - Índios nas cidades
DVD 4 - Povos indígenas e o Estado no Brasil: 1960/2000
DVD 5 - Acabou a tutela?
DVD 6 - Origem e transformação dos preconceitos antí-indígena e da política indigenista Brasil
DVD 7 - Do SPI à FUNAI: a ambiguidade da tutela
DVD 8 - Conceitos chaves e instrumento de entendimento do funcionamento do Estado brasileiro
DVD 9 - Conceitos chaves e instrumentos de entendimento da realidade sócio política: a visão do Direito Constitucional
DVD 10 - Movimentos indígenas, as estratégias e as lutas na conquista de direitos
DVD 11 - Desafios da educação escolar indígena
DVD 12 - Saúde indígena
DVD 13 - Política indigenista: a reestruturação da FUNAI
DVD 14 - Desafios etnoambientais

Acesse o material aqui:

http://laced.etc.br/site/atividades/video-aulas/o-estado-e-os-povos-indigenas-no-brasil/

domingo, 29 de março de 2015

o tabu do incesto e a bioantropologia

José Francisco Carminatti Wencenlau, André Strauss Rev. Cadernos de Campo v. 21, n. 21 (2012)
O debate acerca do tabu do incesto tem sido amplamente discutido até mesmo antes da fundação da antropologia como disciplina. Porém, foi nessa área do conhecimento que o tema adquiriu atenção acentuada, em especial após a publicação do renomado trabalho de Claude Lévi--Strauss, As estruturas elementares do parentesco, em 1949. Grande parte das escolas de ciências sociais brasileiras toma o assunto como encerrado por esse autor, contudo, isso está longe de ser verdade. Neste artigo procuramos reacender o debate com o estruturalismo lévi-straussiano e a sua principal teoria a respeito da proibição do incesto – a teoria da aliança– através do levantamento de diversos estudos que de algum modo dialoguem com a obra desse autor. Deste modo, com especial auxílio dos trabalhos de fronteira entre a biologia e a antropologia – que muitas vezes não chegam ao contato dos cientistas sociais – desejamos reavivar essa reflexão no circulo acadêmico brasileiro.

Para ler online: http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/53904/57848

Para baixar cópia do artigo em seu computador: http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/download/53904/57848

quarta-feira, 25 de março de 2015

regulamentação da profissão de arqueólogo foi aprovada no senado, agora segue para a câmara

Via Agência Senado

A regulamentação da profissão de arqueólogo foi aprovada nesta quarta-feira (25) pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS). O projeto torna o exercício da profissão de arqueólogo privativo dos diplomados em bacharelado em Arqueologia no país e no exterior (neste caso, desde que o título tenha sido revalidado no país); dos pós-graduados em área de concentração em Arqueologia, com monografia ou tese e com pelo menos dois anos consecutivos de atividades científicas no campo profissional da Arqueologia. A matéria é terminativa na comissão. Ou seja, seguirá diretamente para análise da Câmara dos Deputados, a menos que haja requerimento expresso para que também seja votada pelo Plenário do Senado.

De autoria da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), o projeto estabelece que também poderão exercer a profissão os diplomados em outros cursos de nível superior que, na data da publicação da futura lei, contem com pelo menos cinco anos consecutivos — ou dez anos intercalados — de exercício de atividades científicas no campo profissional da Arqueologia; e os que tenham concluído curso de especialização na área e contem com pelo menos três anos consecutivos de atividades nesse campo profissional.

As senadoras Lúcia Vânia (PSDB-GO) e Marta Suplicy (PT-SP) comemoraram a aprovação da proposta. Lúcia Vânia afirmou que a nova regulamentação vai favorecer as pesquisas arqueológicas no país e fortalecer o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Já Marta ressaltou que a profissão tem uma importância extraordinária na pesquisa e catalogação da cultura brasileira.

— O povo não tem futuro se não tem seu passado conhecido e privilegiado — disse.

O relator, senador Waldermir Moka (PMDB-MS), disse que é evidente, pela importância e complexidade, que as atividades de pesquisa arqueológica exigem do profissional uma habilitação específica, agora reconhecida com a aprovação da proposta.

Ele apresentou emenda para determinar que a condição de arqueólogo deve ser comprovada “para a prática de assinatura de contratos, termos de posse em cargo público, pagamento de tributos devidos pelo exercício da profissão e desempenho de quaisquer funções a ela inerentes”.

Atribuições

A proposta estabelece como atribuições do arqueólogo, entre outras: planejar, organizar, administrar, dirigir e supervisionar as atividades de pesquisa arqueológica; identificar, registrar, prospectar, escavar e proceder ao levantamento de sítios arqueológicos; executar serviços de análise, classificação, interpretação e informação científica de interesse arqueológico; chefiar, supervisionar e administrar os setores de arqueologia nas instituições governamentais de administração pública direta e indireta, bem como em órgãos particulares; prestar serviços de consultoria e assessoramento na área de Arqueologia; realizar perícias destinadas a apurar o valor científico e cultural de bens de interesse arqueológico, assim como sua autenticidade; coordenar, supervisionar e chefiar projetos e programas na área de Arqueologia.

O projeto dispõe ainda sobre responsabilidades em pesquisa de campo e estabelece que em toda expedição ou missão estrangeira de Arqueologia em território nacional será obrigatória a presença de um número de arqueólogos brasileiros que corresponda, pelo menos, “à metade do número de arqueólogos estrangeiros nela atuantes”.

Para Vanessa Grazziotin, a regulamentação da profissão permitirá “a identificação dos profissionais competentes, facilitando, para a administração pública e para a iniciativa privada, a contratação do profissional certo para aquele projeto, programa ou exploração específica”.

Segundo a autora da proposição, o Brasil tem atualmente mais de 6 mil sítios arqueológicos identificados.

“Não podemos entregar ao abandono, à incompetência, aos furtos e à deterioração esses valores inestimáveis, fundamentais para o futuro do conhecimento e da cultura nacionais. Caso isso aconteça, iremos lamentar muito no futuro a perda de referências históricas importantes, com redução do potencial turístico e deterioração de nosso patrimônio comum, que, bem explorado, pode gerar emprego e renda para nossos cidadãos”, argumenta a senadora.

terça-feira, 24 de março de 2015

os sentidos do sacrifício na religiosidade afro-brasileira

cravo-mario-netoO NER vem acompanhando e debatendo um projeto de lei que tramita no legislativo gaúcho e pretende submeter os rituais afro-brasileiros que envolvem animais às mesmas regras que presidem o chamado "abate humanitário". José Carlos dos Anjos, professor do Departamento de Sociologia da UFRGS, desenvolve sua crítica a tal concepção. Foto: Mario Cravo Neto

Olhando-se para a religiosidade afro-brasileira pelo mesmo ângulo que se promoveu o tráfico de milhões de africanos através do atlântico na condição de escravizados e se aniquilou milenares culturas indígenas nas Américas, se pode, sim, concluir que são bárbaros os rituais de sacrifícios de animais realizados nos terreiros. O olhar arrogante que de forma intolerante vem, há mais de um século, policiando, segregando e confinando na temeridade uma forma milenar de religiosidade tem mostrado que pode decretar o fechamento definitivo das casas de religião afro-brasileira do país. Decretar que não é mais legal o sacrifício religioso de animais é o mesmo que banir o culto aos orixás por puro preconceito.
Sob a mesma arrogância colonialista com que no passado se procedeu ao tráfico, escravização, catequese forçada, os religiosos afro-brasileiros estão, hoje, sendo acuados. Serão, os religiosos afro-brasileiros, levados a acatar o que a cultura dominantemente ocidental define como sendo o sentido das coisas do mundo, as sensibilidades em jogo no cosmo? O sentido dos acontecimentos cósmicos podem ser decididos, por decreto, a partir da sensibilidade de uma única cultura? As certezas imperativas terão de ser sempre e em toda a parte aquelas que a tradicional cultura ocidental sanciona? Os sentidos ocidentais de verdade e as sensibilidades ocidentais em relação ao sofrimento, ao que é humano, o belo, o divino, continuarão a ditar a ordem do mundo sem a menor abertura em relação a possibilidade de que essa outra cultura – a afro-brasileira – tenha reconhecida a condição de “maioridade” para dizer o que é válido para ela, a sua verdade humana, natural e cósmica?
O sacrifício de animais nos terreiros dá-se numa forma milenar de cultura que não separa o divino, o humano e o natural nem mesmo no sofrimento. No sacrifício há uma única pessoalidade em metamorfose e renascimento. Por estarem congregados numa unidade, o sacrifício é um momento especial de fusão de destinos e renascimentos em uma unidade simultaneamente animal, humana e divina. O sacrifício só ocorre na medida e quando não há a recusa das três partes que se entregam ao acontecimento cósmico. As acuradas sensibilidades desenvolvidas na religião para o cuidado do animal não podem ser substituídas por técnicas veterinárias, porque aquelas são mais antigas, sensíveis, mais sofisticadas e sobretudo, abertas a insondáveis dimensões cósmicas.
Porque uma religião milenar deveria se curvar ao culto moderno da ciência quando ela carrega suas próprias ciências e seu sentido de verdades que se situam para além das questões que técnicas modernas podem apreciar? Quando se coloca a religiosidade afro-brasileira diante de exigências de comprovações veterinárias de não-sofrimento animal, se poderia perguntar ainda, “porque algumas ciências devem ser levadas em conta e outras não?” Outras disciplinas acadêmicas, com um século de proximidade em relação à religiosidade afro-brasileira, como é o caso da antropologia e da sociologia, em nenhuma das suas expressões e controvérsias, desqualifica o sacrifício animal na religiosidade afro-brasileira como forma de crueldade. Essas outras disciplinas não deveriam ser levadas em conta nesse debate atual? Internacionalmente reconhecidos clássicos das ciências sociais nacionais (como Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Edson Carneiro) e estrangeiros (como Juana Elbein dos Santos, Pierre Fatumbi Verger, Roger Bastide) em nenhum momento de suas vastas obras renegaram o sacrifício animal na religiosidade afro-brasileira. Pelo contrário, todos estiveram próximos do lapidar enunciado de Bastide:
"A filosofia do candomblé não é uma filosofia bárbara,e sim um pensamento sutil que ainda não foi decifrado" (Bastide, 1978).
Um pouco menos de arrogância deveria levar os não-religiosos afro-brasileiros, interessados no tema, a respeitosamente, diante da diferente relação cósmica, perscrutarem a lembrança de que todo o nascimento dá-se no e pelo sangue – em seus múltiplos sentidos cosmológicos. O ritual poderia, para os de fora, situar mais do que uma memória da condição humana; poderia monumentalizar uma esperança. A esperança do renascimento humano menos conflituoso e mais imerso na natureza – essa lembrança sempre renovada nos sacrifícios da religiosidade afro-brasileira. Sem proselitismo, a religiosidade afro-brasileira não pede que a sigam, apenas respeita e se dá ao respeito dos que não comungam dos mesmos valores. Com essa postura se abre ao diálogo.
Referência
BASTIDE, Roger- O Candomblé da Bahia - São Paulo, Nacional, 1978.

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Originalmente publicado em: http://www.ufrgs.br/ner/index.php/estante/visoes-a-posicoes/69-os-sentidos-do-sacrificio-na-religiosidade-afro-brasileira

quinta-feira, 19 de março de 2015

VII enabet

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A ABET – Associação Brasileira de Etnomusicologia – foi fundada em 2001 no âmbito do 36º Congresso Mundial do International Council for Traditional Music (ICTM), associação acadêmica internacional no campo da Etnomusicologia e órgão consultivo da UNESCO. Esse campo científico vem se expandindo mundialmente e também no Brasil, graças à nossa reconhecida diversidade cultural, algo que se reflete na procura e incremento de atividades de formação profissional e de pesquisa em Etnomusicologia na Pós-graduação, Graduação e Extensão. A representatividade da ABET tem apresentado crescimento, também, no plano do debate em relação a questões e paradigmas relacionados ao continente latino-americano. Pesquisadores, professores universitários, estudantes de Pós-graduação e Graduação constituem as principais categorias de participantes dos Encontros bi-anuais da ABET. Para o VII ENABET os povos originários, tradicionais, representantes das culturas populares e dos movimentos culturais das juventudes suburbanas são convidados a assumir maior protagonismo não apenas como participantes mas como condutores de outras maneiras de pensar, viver e resistir musicalmente. Tendo em vista o caráter plural das cosmologias e epistemologias musicais na América Latina, o VII Encontro da Associação Brasileira de Etnomusicologia tem como objetivo provocar uma virada epistemológica e política na prática de pesquisa, assumindo como parceiros os intelectuais guardiões dos modos de pensar e fazer música de comunidades que historicamente foram excluídas de seus papéis de sujeitos do saber. Além disso, após seus 13 anos de existência, a ABET assume a necessidade de compartilhamento e integração das pesquisas na área de etnomusicologia com os países que compõem o continente. A identificação de perspectivas, paradigmas e problemas latino-americanos estará na base das discussões do encontro e poderá proporcionar novos diálogos com a tradição clássica etnomusicológica. O evento oportunizará a constituição de uma rede de trocas de saberes entre os diversos países.

Site oficial do evento: http://www.enabet-2015.ufsc.br/

site da Abet: http://abetmusica.org.br/conteudo.php

arqueólogos encontram sambaqui de 4 mil anos durante obras de aeroporto no Rio

Sítio arqueológico é raro registro de presença humana na cidade antes da chegada dos tupis à Baía de Guanabara

POR SIMONE CANDIDA

Um pedaço da história das primeiras ocupações da costa do Rio de Janeiro acaba de ser desenterrado na área do Aeroporto Internacional Tom Jobim/Galeão, na Ilha do Governador. Durante as obras de melhoria de infraestrutura do terminal, uma equipe de arqueólogos que trabalha no monitoramento do solo da região encontrou numa área de aterro, a cerca de 4 metros de profundidade, um sambaqui (sítio arqueológico com concentração de conchas de ostras e mariscos). Pelos cálculos iniciais, ele registra a presença de comunidades vivendo naquela área da Baía de Guanabara há cerca de 4 mil anos.

Com 40 centímetros de largura e cerca de 4 metros de extensão, a faixa de sedimento tinha conchas, restos de espinhas de peixe e lascas de quartzo, além de um artefato conhecido como “quebra-coquinho”, feito com uma pedra polida. O sítio arqueológico foi descoberto num terreno onde está sendo construída uma nova área de embarque e desembarque e um pátio de aeronaves, junto ao Terminal 2. De acordo com a arqueóloga Madu Gaspar, professora colaboradora do Museu Nacional, da UFRJ, e responsável pela pesquisa no local, o achado surpreende pelo bom estado de conservação e por estar perto de uma área urbana.

Os sambaquis são os sítios arqueológicos mais antigos do litoral brasileiro. E, segundo a Assessoria Técnica de Arqueologia do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan-RJ), no estado do Rio de Janeiro, a ocupação dos grupos sambaquieiros remonta a cerca de 8 mil anos. Além das conchas, neles também se encontram ossos de animais, adornos, artefatos, restos de fogueiras e enterramentos. Eram usados como uma espécie de “cemitério” pelos os grupos de pescadores-coletores que habitavam o litoral. De acordo com o Iphan-RJ, até hoje, no município do Rio de Janeiro foram cadastrados 40 sambaquis. Na Ilha do Governador, dos onze sítios arqueológicos documentados até o momento, dois são sambaquis.

- São os registros dos primeiros ocupantes da costa brasileira. Os sambaquieiros já viviam aqui no litoral quando os tupis chegaram, vindos da Amazônia. Uma população que, provavelmente, foi eliminada por esses índios, que eram canibais - ressalta Madu Gaspar.

DESTRUÍDOS POR COLONIZADORES

Segundo os historiadores, a concentração de conchas dos sambaquis atraiu o interesse dos colonizadores europeus e das gerações seguintes. Muitos sambaquis foram destruídos para serem usados em construções, aterros e na indústria de cal.

- Como os sambaquis eram grande fonte de calcário, e o cal foi a matéria prima das construções no começo da ocupação de cidades como o Rio e Salvador, a maioria dos sambaquis foi destruída ao longo dos processos de ocupação das cidades. Por isso é muito raro encontrar algum, ainda mais em bom estado, junto a uma área urbana, como é o caso deste - diz Madu.

No entanto, o material encontrado, embora em bom estado, foi o que restou de um sambaqui que deve ter sido parcialmente arrasado há 30 anos, durante a construção do aeroporto do Galeão, acredita a arqueóloga.

- Não encontramos o sambaqui inteiro, mas uma área periférica, cerca de 5% do original, e junto dele um material que pode ter sido usado num dos rituais funerários. Normalmente, nestes tipos de sítio, são encontrados também esqueletos humanos, mas não achamos nada desta vez - contou Madu Gaspar, acrescentando que as equipes continuarão trabalhando no local.

 

publicado originalmente em:

http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/arqueologos-encontram-sambaqui-de-4-mil-anos-durante-obras-de-aeroporto-no-rio-15625172

sábado, 28 de fevereiro de 2015

festa de antropologia, cinema e Arte

A FACA é organizada por um grupo heterogéneo de pessoas associadas ao Núcleo de Antropologia Visual e da Arte do CRIA [NAVA], do Centro em Rede de Investigação em Antropologia [CRIA], que têm em comum a vontade de explorar as fronteiras entre o trabalho de investigação e a criação artística. Ao longo das últimas décadas, os antropólogos têm sentido uma necessidade crescente de utilizar suportes não verbais para dar corpo a um conhecimento fenomenológico que emana do seu objecto, enquanto os artistas recorrem cada vez mais a conceitos e sensibilidades etnográficas. Neste contexto, a FACA surgiu como uma arena de discussão e exploração destas inter-relações com o intuito adicional de estimular o diálogo entre a academia e a população em geral.

site oficial do evento em Lisboa: https://faca2015.wordpress.com/

sábado, 21 de fevereiro de 2015

etnografia não é método

Inicio por um lugar comum: como todos sabemos, a etnografia é a ideia-mãe da antropologia, ou seja, não há antropologia sem pesquisa empírica. A empiria – eventos, acontecimentos, palavras, textos, cheiros, sabores, tudo que nos afeta os sentidos –, é o material que analisamos e que, para nós, não são apenas dados coletados, mas questionamentos, fonte de renovação. Não são “fatos sociais”, mas “fatos etnográficos”, como nos alertou Evans-Pritchard em 1950. Essa empiria que nos caracteriza, aos olhos de alguns cientistas sociais pode ser uma desvantagem, se não uma impropriedade; penso, especialmente, nos sociólogos de ontem (e talvez nos de hoje também). Para os antropólogos, no entanto, é nosso chão. 

Texto completo em livre acesso:

PEIRANO, Mariza. Etnografia não é método. Horiz. antropol. [online]. 2014, vol.20, n.42, pp. 377-391. ISSN 0104-7183.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Coleção Museus do Ibram: Museu de Arqueologia de Itaipu – vol. I

publicado originalmente em: http://www.museus.gov.br/20739/

O Museu de Arqueologia de Itaipu, também chamado Museu Socioambiental de Itaipu, em Niterói (RJ), é tema do primeiro volume da coleção Museus do Ibram. O livreto traz ao público a história do museu e a temática que aborda, contextualizando-o em relação à localidade e à comunidade em que está inserido. Consulte ou faça download da publicação.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

o que faz um animal de estimação na antropologia?

Originalmente publicado em: http://novosdebates.abant.org.br/index.php/numero-atual/117-v1-n2/opiniao/135-o-que-faz-um-animal-de-estimacao-na-antropologia

Jean Segata

Professor  de Antropologia
Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Talvez essa pergunta – a do que faz um animal de estimação na antropologia – valha menos por suas possíveis respostas do que por algum exame dela em si. O faz da questão vem com dois sentidos aqui. Um deles é o do tom de “lugar ocupado”, e responde por uma demanda crescente de trabalhos sobre as relações entre homens e animais. O que se tem chamado, por alto, de uma Virada Animalista na Antropologia, e que tem motivado diversos debates, especialmente na França e, recentemente, no Brasil. É claro que o tema conta com longa data na disciplina. O gado dos Nuer de Evans-Pritchard ou os animais e as plantas domesticadas de Georges Haudricourt são apenas alguns dos exemplos mais evidentes. Mas a questão emergente no debate antropológico diz respeito ao lugar que esses animais passaram a ocupar na maneira como temos descrito aquilo que entendemos como composição do social. Trata-se de algo que pode muito bem ser resumido na provocação que Latour (2008: 26) elabora, ao contestar que as coisas, os fenômenos, os animais e toda a sorte de entes que cabem na fórmula de não humano, “deben ser actores y no simplesmente los infelices portadores de una proyección simbólica”. Mas que se considere nisso a ideia de que não há atores em si, aqui ou acolá, à espera de serem marcados na etnografia. O desafio lançado nessa perspectiva não é o de identificar quem ou o que é um ator, mas quando é. O foco está nas associações, nos efeitos, nas contingências ou naquilo que faz fazer na relação. Nesse caso, por alto, o animal provoca, aqui, uma redefinição da própria ideia de agência e, por conseguinte, de social.

Mas há também uma outra forma de se pensar aquele faz, e nesse caso, ele enquanto produção. A isso eu me refiro aos efeitos que a dita virada animalista têm produzido na própria teoria antropológica. Em monografias recentes, inspiradas em tendências formadas por Tim Ingold, Philippe Descola ou Eduardo Viveiros de Castro, nota-se a presença protagonista ou simétrica de animais e humanos enquanto agentes de relação. Mas a questão é que entre esses animais e aqueles pelos quais eu me interessei, os de estimação, há uma distância marcada, que faz aparecer, em igual proporção, a própria distância entre algumas formas de se praticar antropologia e os seus diferentes campos de estudo.

Claro é que há diferenças teórico-metodológicas ou de contextos etnográficos entre os autores que mencionei, mas num todo, eles são referências naquilo que no Brasil se convencionou tratar como etnologia. Claro também é que a ideia de animal de estimação faça parte desses contextos e que as formas de identificação e relação com as quais a antropologia os têm descrito naqueles contextos e nos contextos urbanos são particulares. A distância a que me refiro é aquela marcada na já tão tormentosa distinção “nós”/“eles”, que em alguma medida foi condição constituidora da antropologia e que mais do que uma problemática disciplinar, passou a ser um enfrentamento moral no debate contemporâneo.

Para esclarecer, o meu trabalho com animais de estimação se deu, primordialmente, por meio de uma etnografia realizada em pet shops e clínicas veterinárias na cidade de Rio do Sul, no interior do Estado de Santa Catarina (Segata, 2012b). Ali, eu me investi em um trabalho sobre o desenvolvimento de diagnósticos e tratamentos médico-veterinários cada vez mais sofisticados, sustentados pelo uso de equipamentos da chamada “alta tecnologia médica”, equiparados em valor, funcionalidade e eficiência, àqueles de uso entre humanos. A minha linha de defesa era a de que essas tecnologias facilitavam a relação entre os humanos e os seus animais de estimação, no que eu chamei de produção de semelhança.

Como resultado desse trabalho, eu passei a apresentar e publicar trabalhos onde o destaque eram cães com colesterol e hipertensão, outros que eram utilizadores de aparelhos ortodônticos, com a função de tornar as suas mordidas as mais naturais o possível conforme as características programadas em suas raças. E não escaparam também os cães constipados, frutos infelizes de dietas cada vez menos nutritivas da nossa geração “fast food”. Nesse caminho ainda, apareceram os gatos com problemas renais, e os seus sofríveis procedimentos para a retirada de cálculos de suas bexigas e uretas. Não faltou a gravidez psicológica de cadelas e, acima de tudo, o que veio a ser o objeto de minha maior atenção: os cães diagnosticados com depressão e que passaram a ter a sua “qualidade de vida” mantida pelo uso de psicotrópicos à base de fluoxetina (Segata, 2011; 2012a; 2013c).

As reações a esses casos foram muito diversas, quando apresentadas em alguns encontros de nossa disciplina. Primeiro, porque, por bem ou mal, em geral aconteceram em espaços que por si davam algum enquadramento prévio ao trabalho, em Grupos de Trabalho - GT sobre medicalização, ciência e tecnologia, sobre subjetividade e violência, e só mais recentemente no campo das relações entre humanos e animais propriamente dito. Ali, entre os muitos modos como isso já foi debatido, eu sempre considerei interessante o quanto a ideia de absurdo, de curiosidade e exotismo permeava as falas dos debatedores e de muitos que intervinham. E não faltaram os risos - aqueles que como bem escreveu Nietzsche, ajudam-nos a manter a distância de certos temas. Acontece que aqui eu os vejo como centrais, pois afinal de contas, levou muito tempo para que a antropologia deixasse de fazer aquilo que Roy Wagner já chamou de antropologia de museu de cera, nessa dificuldade digerir sua fetichização do extraordinário. Para ser mais direto, o que eu quero dizer é que a afirmação da humanidade de um jaguar que bebe cauim, de um macaco que avisa sobre a caça, de um pecari que guerreia pelo ponto de vista ou até mesmo de uma pedra viva é muito interessante para a antropologia, não porque nos dê algum indicativo do que são precisamente esses entes, mas porque nos ajudam a entender o mundo dos humanos que se arranjam com isso - e isso, sabemos, tem aparecido com frequência como argumento que sustenta uma outra virada, a ontológica (Viveiros de Castro, 2002). Mas, os risos que são produzidos por animais cardíacos ou depressivos revelam um pouco da antropologia dupla-face que ainda praticamos.

Em um contexto etnológico, o enunciado de que uma sucuri é gente é muito sério e exige do antropólogo a expertise do diálogo metafísico entre as concepções de humanidade dele e aquelas do nativo. Já no meio em que eu tenho trabalhado, uma boa parte de nós, aparentemente, sabe que um “bebezinho da mamãe” é, na verdade, apenas um cachorro, e que “bebezinho” e “mamãe” são fórmulas condensadoras de uma maneira já inculcada entre nós para se falar de afeto, carinho ou cuidado. Os “outros” podem ser animistas, perspectivistas ou totemistas. Nós, os solidários “estendedores” de nosso bem maior, a humanidade. E que fique claro que eu não estou reinvindicando um lugar particular para os animais de estimação ou ainda uma categoria que nos explique, para além da malgrada etiqueta de ontologia naturalista. Torcendo para cá uma inspiração que vem de Joanna Overing (1985), minha questão é: por que o nosso modo de entendimento sobre a humanidade dos animais do “eles” é literal e a do “nós” é metafórica?

Talvez tenhamos aqui um bom indicativo de que entre as muitas invenções dos modernos encontra-se a antropologia e a sua ideia de humanidade. Sim, porque no primeiro caso, como já bem situou Latour (2009), “moderno é aquele que acredita que os outros acreditam”, e no segundo caso, assim como o individualismo criticado por Dumont (2003), a ideia de humanidade também carece de um recall, que a relativize no interior de uma ideologia particular de um lugar e de um momento da história, sob a pena de continuarmos a fazer com que ela repercuta negativamente no próprio conhecimento antropológico. Ou seja, o que eu quero dizer é que eu não trabalhei com animais de estimação humanizados - eu trabalhei com Belinha, com Pink, com George e outros seres singulares que não eram animais, nem cães, e nem uma raça, mas uma contingência, o efeito de uma relação entre entidades instavelmente identificadas como humanas e animais. Contudo, em alguma medida, ainda faltam-me alternativas para pensá-los fora de uma humanidade genérica e metafórica que englobasse todas as suas particularidades e fizesse desaparecer suas animalidades e singularidades.

Enfim, para mim, um animal de estimação na antropologia não faz apenas as vezes de um objeto de novas pesquisas. Ele faz aparecer a contingência que produz tanto nossas animalidades quanto nossas humanidades, numa maquinaria de negação e diferença. Mais que isso, talvez ele force a visibilidade de um conjunto de valores que ainda levam nossa disciplina a operar a partir de uma matriz assimétrica que divide o nós do eles na ainda persistente modernidade da própria antropologia.

Referências

DUMONT, Louis. 1993. “Do Indivíduo Fora do Mundo ao Indivíduo no Mundo”. In: ______. O Individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Rio de Janeiro: Rocco, p. 33-68.

LATOUR, Bruno. 2008. Reensamblar lo Social: una introducción a la teoria del actor-red. Buenos Aires, Manantial.

______. 2009. Sur le Culte Moderne des Dieux Faitiches. Paris: La Découverte.

OVERING, Joanna. 1985. “Today I shall call him, ‘Mummy’: multiple worlds and classificatory confusion”. In: ______. (ed.). Reason and Morality.ASA Monograph 24. London: Tavistock Publications, p. 152-179.

SEGATA, Jean. 2011. Tristes Amis: la médicalisation chez les chiens de compagnie avec dépression dans le sud du Brésil. I Congrés d´Association Française d´ethnologie et d´anthropologie - AFEA. Paris: EHESS, p. 56-62.

_____. 2012a. “Tristes (Psycho)Tropiques: le monde des chiens dépressifs au sud du Brésil”. In: Frédérick Keck; Noëlie Vialle (eds.). Des Hommes Malades des Animaux. 8ed.Paris: L´Herne, p. 151-158.

______. 2012b. Nós e os Outros Humanos, os Animais de Estimação. [Tese de Doutorado]. Florianópolis: Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social.

______. 2012c. "Os Cães com Depressão e os seus Humanos de Estimação". Anuário Antropológico, 2: 177-204.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. 2002. “O Nativo Relativo”. Mana, 8(1): 113-148.

Jean Segata

Professor  de Antropologia
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Currículo Lattes

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Expulsão dos Demônios Antropológicos da Torre de Marfim

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Dezembro de 2014, Pádua, Itália
Segundo Simpósio Internacional de Antropologia aplicada
Autores: Meta Gorup & Dan Podjed

 

 

 

 

No início de dezembro de 2014, a cidade italiana de Pádua sediou o segundo simpósio internacional Por que o mundo precisa de antropólogos, que foi assistido por mais de 200 visitantes da Europa e mais além. No evento, organizado anualmente pela Rede Antropologia Aplicada da Associação Europeia de Antropólogos Sociais (EASA), em colaboração com várias instituições, os alto-falantes e o público tentou descobrir como estabelecer uma cooperação entre a antropologia acadêmica e aplicada.

De negócios arriscados no Afeganistão para abrir ecossistemas

O evento foi aberto por Vanda Pellizzari Bellorini, assessora do prefeito de Pádua, e Simone Borile, presidente e diretora da Universidade Campus CIELS, que expressou uma recepção para o auditório lotado no Centro Cultural de Altinate / San Gaetano, no centro da cidade de Pádua. Os participantes, em seguida, embarcaram numa jornada que os levou de empresas arriscadas de Antonio Luigi Palmisano, professor italiano de antropologia social e econômica na Universidade de Salento, através de ousadia os desafios de negócios de Rikke Ulk, antropólogo e CEO da empresa de consultoria dinamarquesa Antropologerne, para se familiarizar com ecossistemas abertos, que ajudam a melhorar a experiência do usuário, que foram introduzidos por Michele Visciola, co-fundador da empresa com sede em Turim Experientia.

Diversas idéias para o trabalho prático de antropólogos continuaram durante o painel de discussão aquecida, que foi moderada por Dan Podjed, coordenador da EASA Rede Antropologia Aplicada. Para além dos três palestrantes, a discussão contou com Desirée Pangerc, professor de Antropologia Aplicada da Universidade Campus Ciels e tenente do exército italiano, e Peter Simonič, observador e promotor da mudança política e professor assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Ljubljana.

O simpósio internacional é um resultado da colaboração entre instituições eslovenas, italianas, holandesas e internacionais. Além do principal organizador, a EASA Rede de Antropologia Aplicada, o evento deste ano foi organizado pela Universidade Campus Ciels, Universidade de Ljubljana, Centro de Investigação da Academia Eslovena de Ciências e Artes, Universidade Livre de Amsterdã, e a Associação Eslovena de Etnologia e Antropologia KULA. O simpósio foi patrocinado pela Agência de Investigação Eslovena.

Advogando para o Estado de Direito

Antonio Luigi Palmisano
Professor Antonio Luigi Palmisano
Além de sua carreira acadêmica bem-sucedida, o primeiro orador, Antonio Luigi Palmisano, atuou como consultor em várias missões internacionais e civis na África, América Latina e Ásia. Ele explicou que os antropólogos em zonas de conflito podem desempenhar um papel crucial na mediação entre as autoridades governamentais e grupos étnicos com seus próprios sistemas jurídicos. De 2002 a 2004, Palmisano trabalhou no Afeganistão onde operou como um intermediário entre o governo e as minorias, e com vista a conciliar os povos que têm por décadas vivido em meio a conflitos armados. Ele considerava-se tão bem sucedido em suas funções, também porque o estabelecimento de diálogo e compreensão mútua é mais simples do que costumamos imaginar que ele seja - no entanto, seus compromissos foram frequentemente dificultado pelos objetivos "superiores" do sistema capitalista, que é apoiado por lobbies dos advogados. Ele enfatizou que os antropólogos devem lutar contra o sistema existente e incentivar o Estado democrático e legal nas regiões onde esses mecanismos parecem ser utópicos no momento.

Antropólogos podem fazer entender o sentido do mundo dos negócios

Rikke Ulk
A próxima oradora tomou o simpósio em Pádua a uma esfera bem diferente. Rikke Ulk é CEO da empresa dinamarquesa Antropologerne que realizou consultoria para diversas organizações dinamarqueses e internacionais, entre outros no campo da saúde, educação, tecnologia, empregabilidade, energia e alimentos. Durante a transferência de seus conhecimentos e habilidades em prática antropológica sobre os negócios soube que "o mundo precisa de antropólogos porque faz sentido, nós nos importamos, temos uma visão, e envolvemos as pessoas." Para engajar com êxito as pessoas para as análises, uma boa comunicação é crucial; no entanto, fazer as perguntas certas é de semelhante importância vital . Rikke Ulk acredita que as empresas também podem contribuir para melhorar as nossas condições de vida, mas somente se as suas questões chegarem além do seu desejo de lucro - e antropólogos são os únicos que podem ajudá-los com as perguntas certas.

Os sistemas abertos permitam a experimentação

Michele Visciola
O terceiro orador foi Michele Visciola de consultoria Experientia que se esforça para melhorar a experiência do usuário nas áreas de tecnologia e inovação. Apesar de não ser formalmente treinado como um antropólogo, Visciola compreende plenamente a importância de abordagens antropológicas e etnografia em melhorar a experiência do usuário. Ele ressaltou que "a inovação tecnológica é 'simples'. É difícil, porém, para criar conexões que realmente trabalham em um determinado ecossistema tecnológico. Nosso papel é criar condições que permitam aos ecossistemas colaborarem. "Em sua opinião, é apenas em sistemas abertos que permitem a experimentação e que são, portanto, crucial para o futuro do desenvolvimento tecnológico.

Onde estão os limites da autonomia?

A discussão final, moderado por Dan Podjed, coordenador da EASA Rede Antropologia Aplicada, abriu uma série de temas ardentes. Os convidados salientaram, por exemplo, que os antropólogos são sempre empregados por alguém, seja o estado, uma missão internacional ou uma empresa multinacional, que em ambos os casos influencia seu trabalho e do nível de sua autonomia. Ressaltaram, ainda, alguns dos pontos fracos dos antropólogos que se tornam particularmente visível fora da esfera acadêmica: suas reações são muitas vezes lentas e complicadas nas suas respostas, enquanto os clientes esperam respostas rápidas, diretas e precisas. Por isso é muito importante colaborar com especialistas de outras áreas que podem oferecer novos insights e ajudar no ajuste abordagens dos antropólogos. Como Rikke Ulk resumiu: ". Antropologia é e deve ser um ecossistema aberto pronto para inclusão e experiência" Desirée Pangerc chamou a atenção para o fato de que os antropólogos costumam dar uma impressão de intelectuais inacessíveis enquanto suas tarefas cruciais na verdade consistem no estabelecimento de contatos entre as pessoas que podem permitir a colaboração e compreensão mútua. Peter Simonič chamou a atenção para o papel fundamental dos antropólogos em contextos locais. Eles podem fornecer informações valiosas e, ao fazê-lo, ajudar as pessoas a compreender seus ambientes e incentivar novas iniciativas para a mudança positiva.

Próximas etapas da Ljubljana, Slovenia

O segundo simpósio internacional Por que o mundo precisa de antropólogos mostrou que numerosos antropólogos europeus já deixaram a torre de marfim acadêmica e que seus números continuam crescendo. Como implicado pelo design gráfico do evento, uma interpretação de Giotto Fresco A expulsão dos demônios de Arezzo, a antropologia Europeia lenta mas persistentemente tem expulsado seus demônios do passado, que impedem o desenvolvimento da disciplina. Parece que o interesse dos antropólogos para a aplicação de conhecimento antropológico fora da academia está crescendo. O próximo passo, no entanto, vai exigir que a antropologia convença os outros sobre a sua utilidade - e este é precisamente um dos objetivos importantes do próximo simpósio que terá lugar em 2015, em Ljubljana, na Eslovénia.

Você pode ver grandes versões destes e outras fotos do mesmo em nossa página no Facebook: www.facebook.com/EASAAAN

O destino da antropologia - a extinção ou renascimento?
29 de novembro de 2013 em Amsterdam Tropenmuseum
Autores: Meta Gorup (Universidade de Ghent), Janja Stefanic (Universidade de Ljubljana)

O primeiro simpósio Rede Antropologia Aplicada EASA, intitulado Por que o mundo precisa de antropólogos, que teve lugar em 29 de Novembro de 2013, Tropenmuseum Amsterdã, oferecidas várias respostas para a questão da queima colocada no título do evento. O evento atraiu cerca de 200 pessoas de toda a Europa e contou com três antropólogos aplicados mundialmente famosos: Anna Kirah (Making Waves, Noruega), Jitske Kramer (HumanDimensions, Países Baixos), e Simon Roberts (Stripe Partners, Reino Unido).

Seus discursos inspiradores foram seguidos por uma intrigante discussão do painel moderado por Dan Podjed, coordenador da EASA Rede Antropologia Aplicada. Os convidados do painel de discussão eram um grupo heterogéneo de (mais ou menos), antropólogos aplicados e especialistas que de perto colaboram com eles: Professor Rajko Muršič da Universidade de Ljubljana, professora Marina de Regt da VU University Amsterdam, chefe do departamento de curadoria de Tropenmuseum Wayne Modest, antropóloga e jornalista holandêsa Nadia Moussaid, e Gregor Cerinšek, pesquisador e gerente de projetos do Instituto de Inovação e Desenvolvimento na Universidade de Ljubljana.

O evento em Amsterdam foi um resultado da colaboração entre eslovenos e holandêses e instituições internacionais. Além EASA Rede Antropologia Aplicada, o evento foi organizado pela VU University Amsterdam, Universidade de Ljubljana, Associação Antropológica holandêsa, Tropenmuseum e Instituto de Inovação e Desenvolvimento da Universidade de Ljubljana. Patrocinadores de recursos foram fornecidos pela fundação holandesa Vamos Bien !, Agência de Pesquisa eslovena, e empresa eslovena Metronik. A realização do simpósio foi cuidado por alunos da VU University Amsterdam Departamento de Antropologia, Dan Podjed da Universidade de Ljubljana, Ellen Bal e Rhoda Woets da VU University Amsterdam, e Meta Gorup da Universidade de Ghent.

O evento foi aberto pelo antropólogo holandês Ellen Bal, professor da VU University Amsterdam que saudou o salão Tropenmuseum completo. Havia estudantes de antropologia e graduados entre o público, assim como muitos (aplicados) antropólogos estabelecidos, unidas por representantes de outras disciplinas interessadas em colaboração com os antropólogos. Ellen Bal reconheceu com razão, que uma resposta tão numerosa e diversa significa que a missão dos antropólogos é uma questão chave exigindo uma resposta imediata.

Anna Kirah, Making Waves
O primeiro orador, a antropóloga do design mundialmente famosa  Anna Kirah que começou sua carreira em empresas como Microsoft e Boeing e é hoje diretora-chefe experiência (CXO) em companhia norueguesa Making Waves, já ofereceu várias respostas de apoio para a pergunta por que o mundo precisa antropólogos. Ela incentivou antropólogos não terem medo de voar por cima da borda e sair da academia. Na sua opinião, a tarefa dos antropólogos é para facilitar a mudança, permanecendo humilde e ciente de que não somos especialistas. Apesar disso - ou exatamente por causa disso - que podem envolver-se especialistas no processo de mudança. Ao fazer isso, tornam-se fundamentais no atendimento e melhoria do produto. Convencido de seus benefícios, Anna Kirah sempre emprega abordagem centrada no homem para a criação de tecnologias, aplicações e objetos não só para as pessoas, mas com o povo. Na sua opinião, é por isso que o mundo precisa de antropólogos: porque eles são treinados para compreender diversos pontos de vista e sabem como se entrelaçam aspectos aparentemente não relacionados.

Jitske Kramer, Dimensões Humanas
O primeiro discurso foi seguido pela palestra da antropóloga holandêsa Jitske Kramer das Human Dimensions instituição que opera nas esferas da diversidade, relações interculturais, e mudança organizacional nas empresas. Como o orador anterior, Jitske Kramer também enfatizou que como antropóloga que ela não pode ser a mudança organizacional, mas ela pode facilitar a mudança, permitindo que os membros da organização a entender os eventos e atividades cotidianas. Ela acredita que é possível mudar o sistema, mas isso só pode ser alcançado através da compreensão do sistema e não por destruí-lo. Para ser capaz de fazê-lo, estudando organograma de uma empresa e realizando uma análise minuciosa de negócios não é suficiente. É necessário saber como as relações entre os membros da organização são formados e qual a sua influência sobre o negócio. O próximo passo representa o grande desafio - como introduzir a mudança organizacional de uma forma inclusiva, ou seja, de uma forma que é agradável para os membros da organização. Na sua opinião, a única maneira de realizar isso é através da compreensão por que as pessoas agem e fazem as coisas da maneira que eles fazem, e por isso que gostaria de mudar isso em primeiro lugar. Afinal, o objetivo da mudança é conectar as pessoas em sua diversidade, e esta é uma tarefa que se encaixa perfeitamente as habilidades dos antropólogos.

Simon Roberts, Stripe Partners
O último orador foi Simon Roberts, antropólogo empresarial britânico com mais de dez anos de experiência em pesquisa tecnológica e desenvolvimento estratégico - incluindo corporação internacional de tecnologia Intel - que recentemente criou uma empresa de consultoria Stripe Partners. Roberts apresentou uma perspectiva muito otimista sobre o papel dos antropólogos em um mundo em constante mudança. Em sua visão, a missão da antropologia é tempo e voltar a oferecer soluções para desafios aparentemente auto-evidente que enfrentamos no dia a dia, como a obesidade e envelhecimento da sociedade. Este processo é impedido por uma diferenciação entre a antropologia acadêmica e aplicada, é por isso que os antropólogos devem se esforçar para esquecer essa divisão "não natural". Só se for feito assim, antropólogos são capazes de oferecer as melhores soluções para o mundo.

discussão
Painel de discussão - a extinção ou renascimento da antropologia?
O simpósio concluído com um painel de discussão moderado por Dan Podjed. Ele começou o debate com a questão de saber se a antropologia será confrontada com o mesmo futuro como o pássaro dodo que foi extinto no século 17. As respostas dos painelistas revelaram que eles prevêem um futuro mais brilhante.

Wayne Modest, chefe do departamento de curadoria em Tropenmuseum, uma instituição que tradicionalmente emprega antropólogos em uma esfera aplicada, salientou que a missão do museu é a introdução de questões problemáticas para um maior público e não apenas para gerar conhecimento.

Marina de Regt, antropóloga da Universidade Livre de Amsterdã, cooperou com organizações não-governamentais no Yemen. Embora este seja um campo aplicado, que muitas vezes emprega antropólogos, ela desenvolveu uma perspectiva crítica sobre a chamada "ajuda ao desenvolvimento".

A antropóloga holandêsa Nadia Moussaid trabalha na estação de televisão AT5. Conhecimentos adquiridos durante seus estudos de antropologia afetam a escolha dos temas que ela escolhe para relatar e muitas vezes ajuda-la com colocando-se em lugar de outras pessoas.

Rajko Muršič, professor na Universidade de Ljubljana, enfatizou a importância da transferência de conhecimento antropológico na prática. Em sua opinião, a antropologia aplicada simultaneamente deve também ser engajada e vice-versa, porque esta é a única forma que permite a antropologia enfrentar e resolver problemas críticos.

Gregor Cerinšek do Instituto de Inovação e Desenvolvimento da Universidade de Ljubljana não é um antropólogo, mas muitas vezes ele colabora com eles em equipes multidisciplinares. Ele sustentou que as contribuições antropológicas são sempre bem-vindos quando se trabalha em tais equipes.

O painel de discussão concluiu com um tema muito comum nas reuniões antropológicos - ética. Esse problema visivelmente perturbou o público e forneceu uma garantia de que o debate sobre o porquê de o mundo precisa de antropólogos e de que forma os antropólogos devem estar engajados em resolver questões problemáticas continuaria durante a recepção a ter lugar depois do simpósio.

O simpósio em Amsterdã não forneceu uma resposta definitiva para a questão do futuro da antropologia, mas, sem dúvida, mostrou que muito pode ser alcançado com o conhecimento e as habilidades antropológicas, e que as acusações comuns de "arte pela arte" da antropologia não são verdadeiras. Antropologia é uma disciplina crucialmente necessária para a compreensão da sociedade contemporânea e permite a mudança positiva, portanto, não está sequer perto de frente para o destino do dodo. Muito pelo contrário: ramos aplicados da antropologia são cada vez mais crescente também na Europa. Portanto, o futuro da antropologia deve ser comparado a uma característica renascimento do Phoenix pássaro místico.

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Tradução livre por Davy Sales a partir da fonte original em inglês: http://www.easaonline.org/networks/app_anth/events.shtml

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Três línguas são reconhecidas pelo Iphan como Referência Cultural Brasileira

 

publicado originalmente em http://portal.iphan.gov.br/portal/montarDetalheConteudo.do;jsessionid=598653EBE759A64BAC30AD3EF327874C?id=18682&sigla=Noticia&retorno=detalheNoticia
 
 
divercidade linguistica

As línguas serão apresentadas em encontro ibero-americano que vai debater políticas públicas para a preservação da diversidade linguística.

Talian, Asurini do Trocará e Guarani Mbya são as primeiras línguas reconhecidas como Referência Cultural Brasileira pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e que agora passam a fazer parte do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), conforme dispõe o Decreto 7387/2010. Essas línguas e os representantes de suas comunidades serão homenageados durante o Seminário Ibero-americano de Diversidade Linguística que vai acontecer em Foz do Iguaçu (PR), entre os dias 17 e 20 de novembro.

O Talian é utilizada por uma parte da comunidade de imigração italiana, na Região Sul do Brasil, sobretudo nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. A língua é falada desde que os italianos começaram a chegar ao país, no final do século XIX. Há municípios desses estados nos quais o Talian é língua co-oficial. Ou seja, detém relevância tanto quanto a língua portuguesa.

Asurini do Trocará ou Asurini do Tocantins é a língua falada pelo povo indígena Asurini, que vivem as margens do Rio Tocantins, no município de Tucuruí (PA). A língua pertence à família linguística Tupi-Guarani.

Guarani Mbya é uma das três variedades modernas da Língua Guarani, juntamente com o Nhandeva ou Ava Guarani e o Kaiowa. A língua Guarani Mbya é uma das línguas indígenas faladas no Brasil, ocupando uma grande faixa do litoral que vai do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul, além da fronteira entre Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina. Os Guarani representam uma das maiores populações indígenas do Brasil. Estão distribuídos por diversas comunidades.

Seminário Ibero-americano de Diversidade Linguística 
O evento vai discutir políticas públicas para a preservação e promoção da diversidade linguística dos países Ibero-americanos.  O objetivo do encontro é possibilitar a reflexão sobre as experiências e iniciativas desenvolvidas pelos países, como a política brasileira para a diversidade linguística, além de propiciar um espaço de levantamento, sistematização e análise de experiências e iniciativas voltadas à promoção do espanhol e do português como segundas línguas dos países Ibero-americanos, assim como nos Estados Unidos, Canadá, Caribe e África Lusófona.

Durante o Seminário vão ocorrer ainda os seguintes eventos:  Encontro de Autoridades Ibero-Americanas sobre Políticas Públicas para a Diversidade Linguística, reunindo representantes de todos os países que integram a comunidade ibero-americana, e o Fórum Línguas, Culturas e Sociedades, organizado pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).

O evento é uma parceria do Iphan e do Ministério da Cultura com a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Essa é primeira edição do encontro. A cidade de Foz do Iguaçu foi escolhida para sediar o evento por estar na fronteira do território linguístico do português, espanhol e das línguas minoritárias faladas no espaço ibero-americano.

INDL
Para que uma língua seja reconhecida e passe a fazer parte do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL) ela precisa ser falada em território nacional há, pelo menos, três gerações, o marco temporal é em torno de 75 anos. O objetivo do Inventário é associar a expressão linguística à sua comunidade de referência e valorizar a expressão enquanto aspecto relevante do patrimônio cultural brasileiro.

Para fazer é solicitação, é necessário que a comunidade encaminhe o pedido de inclusão no INDL para o Iphan. O pedido é analisado por uma comissão técnica formada por representantes dos seguintes ministérios: Ministério da Cultura, Educação, Ciência Tecnologia e Inovação, Justiça e Planejamento. Se esses representantes decidirem pelo reconhecimento, o processo segue para a sanção da Ministra da Cultura.

Acesse o site para mais informações sobre o Seminário: http://diversidadelinguistica.cultura.gov.br/ 

Serviço: 
Seminário de diversidade linguística – Ibero-americana
Data: 17 a 20 de novembro de 2014
Local: Foz do Iguaçu (PR)
Informações: 
http://diversidadelinguistica.cultura.gov.br/

Assessoria de Comunicação Iphan 
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Adélia Soares – adelia.soares@iphan.gov.br
Isadora Fonseca – isadora.fonseca@iphan.gov.br  
(61) 2024-5479/ 9381-7543

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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

tecnociência, corpos, gênero e sexualidade

Chamada de artigos - Mediações - Revista de Ciências Sociais

A Comissão Editorial de Mediações, Revista de Ciências Sociais, do Departamento e Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da Universidade Estadual de Londrina, receberá artigos para o volume 20, número 1, correspondente ao primeiro semestre de 2015. Este número trará o dossiê temático:

Tecnociência, corpos, gênero e sexualidade

Ciência e tecnologia se configuram como dispositivos de produção de verdades e de intervenções sobre o mundo, e sobre os corpos em particular. Temáticas como gênero e sexualidade evidenciam o quanto esses processos são perpassados por tensões e relações políticas. Neste dossiê propomos reunir artigos provenientes de pesquisas empíricas e/ou reflexões teóricas que analisem como gênero permeia a produção do conhecimento científico, como também as implicações desse conhecimento na produção de convenções e intervenções sobre as temáticas em questão.

São bem-vindas pesquisas que discutam o caráter sociopolítico da tecnociência na definição de legitimidades ou ideias regulatórias (normalidades e/ou naturalidades) que afetam a existência cotidiana das pessoas, validando (pre)conceitos e produzindo hegemonias e estigmas de certos traços vinculados aos corpos generificados; trabalhos que abordem o cotidiano de produção do conhecimento científico, sua divulgação, as repercussões do mesmo na vida das pessoas; análises de intervenções biotecnológicas (cirúrgicas, endócrinas/hormonais, protéicas) sobre os corpos sexuais, reprodutivos e generificados. Também serão bem-recebidas contribuições que documentem e analisem agenciamentos mediante a apropriação de intervenções biotecnológicas na produção de transformações corporais que evidenciam dissociações nas convencionais correspondências entre corpo, gênero e sexualidade

Organizadoras: Daniela Manica (UFRJ) e Martha Ramírez-Gálvez (UEL)

Data limite para recepção de artigos: 14 de fevereiro de 2015

As submissões podem ser enviadas através do portal da revista http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes ou pelo email: mediacoes@uel.br

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

simetrização hibridismo e agência na antropologia

  • II Seminário Mapeando Controvérsias Contemporâneas
  • simetrização, hibridismo e agência na antropologia
  • 17. nov, 2014 no auditório CFH/UFSC

O Duplo vinco antropológico: Espíritos e bruxos, políticas e ciência (Márcio Goldman MN/UFRJ)

Etnografias multispécies (Bernardo Lewgoy UFRGS, Jean Segata UFRN)

Políticas Etnográficas e o lugar da técnica (Carlos Emanuel Sautchuk UNB, Theóphilos Rifiotis UFSC)

Humanos e não-humanos na antropologia (Sophie Houdart Paris-X Nanterre)

 

Seminario-simetrizaçãoSeminario-simetrização

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

oportunidade consultor unesco

Foi publicado no Jornal de Brasília de 21 de setembro  de 2014,, o Edital de Seleção 16 /2014 - TOR   TERRITÓRIOS – 1 vaga - Projeto UNESCO 914BRZ1144.5 Análise, desafios, necessidades e perspectivas nos Processos de Implementação e Avaliação das Políticas Públicas Educacionais para os Povos  Indígenas, Quilombolas, do Campo, Ciganos e outras Populações em Situação de Itinerância, com prazo para recebimento de currículos até o dia 28 de setembro de 2014, conforme anexos.

O Edital em questão também está disponibilizado no site da UNESCO,

link:http://app3.brasilia.unesco.org/vagasubo/index.php?option=com_phocadownload&view=category&download=2699:914brz1144.5-edital-16-2014&id=1:vagas-em-projetos&Itemid=5

Outros editais da UNESCO:

http://app3.brasilia.unesco.org/vagasubo/index.php?option=com_phocadownload&view=category&id=1&Itemid=5

E no site do MEC: link: Conheça o MEC - Seleção de Consultores” :

http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=20117&Itemid=1207