terça-feira, 15 de dezembro de 2015

enciclopédia de antropologia


Esta Enciclopédia de Antropologia é, desde o começo, um instrumento de trabalho. Fruto da parceria entre alunos e professores do Departamento de Antropologia da USP, ela nasceu em sala de aula, alimentada por trocas e debates que tiveram lugar no interior dos cursos regulares de pós-graduação. 

Endereço da enciclopédia: http://ea.fflch.usp.br/

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

terra vermelha

Mato Grosso do Sul, Brasil, 2008. O suicídio de duas meninas Guarani-Kaiowá desperta a comunidade para a necessidade de resgatar suas próprias origens, perdidas pela interferência do homem branco. Um dos motivos do desaparecimento gradual da cultura reside no conflito gerado pela disputa de terras entre a comunidade indígena e os fazendeiros da região. Para os Kaiowás, essas terras representam um verdadeiro patrimônio espiritual e a separação que sofreram desse espaço é a causa dos males que os rodeia. Uma disputa metafórica é criada. A compreensão e o diálogo buscam espaço nesse antigo conflito. Enquanto isso, o jovem Osvaldo, que vive um terrível embate contra o desejo de morrer, vai furtivamente buscar água no rio que corta a fazenda e conhece a filha do fazendeiro. Um encontro em que a força do desejo transpassa e ao mesmo tempo acentua o desentendimento entre as civilizações.

FICHA TÉCNICA
Direção: Marco Bechis
Roteiro: Marco Bechis, Luiz Bolognesi
Produtor: Amedeo Pagani, Marco Bechis, Caio Gullane e Fabiano Gullane
Ano: 2008
Duração: 108’




segunda-feira, 9 de novembro de 2015

VI festival internacional do filme etnográfico do Recife

Programação Geral


Dia 16 de Novembro

Abertura Oficial
Local: cinema da Fundação (Derby)
17:00

Mesa de Abertura
Diretor da MECA
Coordenador do LAV
Secretaria de Cultura
Fundarpe

Homenagem  ao Cineasta Vincent Carrelli
Filme Homenageado:
Cajueiro Nordestino de Linduarte Noronha

MOSTRA COMPETITIVA
Local: Cinema da Fundação (Derby)

CONHECENDO O DESCONHECIDO.
Pedro Henrique Cardoso, Brasil. 20’. 2014
DOING THE SHEEP GOOD.
Teresa Montoya, EUA. 24’ 42’’. 2013
IHIATO – NARRATIVAS DOS ANCIÃOS FULNI-Ô.
Elvis Ferreira de Sá, Brasil. 15’ 44’’. 2014
MARIO REVE JEGUATÁ.
Coletivo Mbya-Guarani de Cinema, Brasil. 21’. 2015
O SONHO DO NIXI PAE: O MOVIMENTO DOS ARTISTAS HUNI KUIN.
Amilton Pelegrino de Mattos, Brasil. 43’ 45’’.  2014
RETOMADA
Leon Sampaio, Brasil. 16’. 2015
SERENKATO - O CANTO DA FLORESTA.
Jonathas Bernard, Brasil. 15’. 2014
AFLUENTES
 João Meirinhos, Perú / Reino Unido. 28’ 30’’. 2013
Monitores: Rayana Mendonça, Samara Almeida, Amanda Leão, Thaiza Raiane, Gabriel Góes, Renê Nascimento e Bruno César.


Dia 17 de Novembro

Manhã: 9:00 – 12:00
OFICINA
9:00 – 13 horas
Auditório 3 Antropologia 13 andar CFCH
1. Introdução a Antropologia Visual
Coordenação: Emiliano Dantas 
Monitores: Gabriel Góes e Karla Fagundes
  
MOSTRAS PARALELAS
Curadoria: Jane Pinheiro e Renato Athias

MOSTRA NARRATIVAS, VIDA E COTIDIANO
Auditório 1 Biblioteca Central/UFPE
Coordenação Naylini Sobral
Monitores: Gisele Mirella e Klever Alberto

TRANSPONDO OLHARES
Gilson Goulart Carrijo, Minas Gerais/Brasil. 21' 51''. 2015
SOCIABILIDADE POR 1,00 REAL
Antonia Géssica de S. Matos e Janiel de S. Medeiros. Ceará/Brasil. 12' 48''. 2014
DORSAL
Carlos Segundo. São Paulo/ Brasil. 25'. 2015
RETRATO SEM RETOQUES: A ÁFRICA NA UFPE
Leandro Wagner de Albuquerque da Silva. Recife/Brasil. 10' 58''. 2015
RUA DAS ÁRVORES
Direção: Alice Jardim. São Paulo/Brasil. 20'.2013

MOSTRA COMUNIDADES TRADICIONAIS
Auditório 2  Biblioteca Central
Coordenação: Philipi Bandeira
Monitores:  Wenderson Lima e Mauricio Souza

SUAPE: DESENVOLVIMENTO PARA QUEM?
Mariana Olívia Santana dos Santos. Recife/ Brasil. 29”.2015
O RINOCERONTE E A ZEBRA. ANTROPOLOGIA SUBURBANA.
Gabriel O. Alvares. Goiânia /Brasil. 25'. 2014
CAMINHANDO E CANTANDO: A 8ª ROMARIA DA FLORESTA
Darien Vincent Lamen. Brasil/ EUA. Madison/Wisconsin. 16'50''. 2014
CIDADE LÍQUIDA
Laís Araújo. Maceió/ Brasil. 12'. 2015

MOSTRA OLHARES CRUZADOS
Auditório 4 Biblioteca Central/UFPE
Coordenação: Flavio Amaral
Monitores:  Suely Silva e Patterson Duarte

SOLARIS
Pavel Borecky. Tallinn/Estônia. 25'. 2014
ESTIVE EM BRASÍLIA, LEMBREI DE VOCÊ
Carla Teixeira e Igor Z. Cerqueira. Brasil. Taguatinga /Brasil. 22'.2015
MOURARIA 3.0
Ana Rita Matias. Lisboa/Portugal. 30'.2014
LUIZ DA ROCHA
Inês Mestre. Lisboa /Portugal. 19'. 2013
Mostras Paralelas
Tarde: 14:00 – 17:00

MOSTRA NARRATIVAS, VIDA E COTIDIANO
Auditório 1 Biblioteca Central / UFPE
Coordenação: Naylini Sobral
Monitores:  Gabriel Góes

ONDE OS CAMINHOS ESTÃO SUSPENSOS
Vitor Vilaverde. São Paulo/Brasil. 10'. 2015
INTRAMUROS
Clarice Peixoto.  Rio de janeiro /Brasil. 36'. 2015
FUMAÇA
Daniel Simião e Yuri Corteletti. Brasil. Brasília – DF. 18’. 2015
FABRIK FUNK
Alexandrine Boudreault-Fournier, Rose Satiko G. Hikiji e Sylvia Caiuby Novaes. Sao Paulo/Brasil. 25'.2015
FELI(Z)CIDADE
Clementino Junior. Rio de Janeiro/Brasil. 11'. 2015

COMUNIDADES TRADICIONAIS
Auditório 2 Biblioteca Central / UFPE
Coordenação: Philipi Bandeira
Monitores:  Thaiza Raiane

TRIANGULO DA VIDA
Aisha Lourenço e Sálua Oliveira, Recife, 15” 2015
AMAZÔNIA VIVA
Edmilson Ferreira de Souza. Maranhão/Brasil. 52'. 2013
GARRA XAVANTE, UM DOCUMENTÁRIO MUSICAL
Mauro Bruschi. Pelotas/ Brasil.26'. 2013
DO BUGRE AO TERENA
Cristiano Navarro Peres e Aline Espínola. São Paulo/ Brasil. 25'. 2014
CONHECENDO SÃO GONÇALO BEIRA RIO
Eveline Bezerra. Cuiabá / Brasil. 20'. 2013

MOSTRA OLHARES CRUZADOS
Auditório 4 Biblioteca Central / UFPE
Coordenação: Flávio Amaral
Monitores:  Bruno César

PIEDRA LIBRE
Alejandra Vassallo, Pía Sicardi. Buenos Aires/Argentina. 73'. 2015)
QUEM FAZ UM JORDÃO GUARDA A TRADIÇÃO
Patrícia Pedrosa. Lisboa /Portugal. 63'. 2015

MOSTRA OUTROS OLHARES
Sala:  Aliança Francesa
Coordenação: Adrien Lefevre
14:00 – 17:00
Monitores:  Amanda  Leão e Renê Nascimento

EL TRIÁNGULO ROSA Y LA CURA NAZI PARA LA HOMOSEXUALIDAD
Nacho Steinberg, Esteban Jasper. Argentina/Brasil. 63’. 2014
P'XÁ KÓRDA: O CORPO, O BOTE E O MAR
Alcides Lopes. Cabo Verde. 25’.  2014
CITIES OF SLEEP
Shaunak Sem. New Delhilonga/India. 75’. 2015

MOSTRA COMPETITIVA
Cinema da Fundação (Derby)
18:00-22:00

EXU ALÉM DO BEM E DO MAL
Werner Salles Bagetti, Brasil.    2014
DEAD BIRDS RE-ENCOUNTERED
Robert Gardner, EUA.  2013
JUREMA
Clementino Junior, Brasil.  2014
KALANDA - THE KNOWLEDGE OF THE BUSH
Lorenzo Ferrarini, Inglaterra.  2014
L'ÉPAISSEUR DES MURS
Federico Varrasso, Haïti/Belgica.  2014

Monitores: Rayana Mendonça, Neilton Silva, Amanda Leão e Patterson Duarte

Dia 18 de Novembro

OFICINA
9:00 – 13 horas
Auditório 3  Antropologia 13 andar CFCH
2. Nativas e Roteiros criativos na produção audiovisual
Coordenação: Glauco Machado
Monitores: Neilton Silva, Samara Almeida e Mauricio Souza

MOSTRA NARRATIVA, VIDA E COTIDIANO
Auditório 1 Biblioteca Central / UFPE
Monitores:  Gisele Mirella

SÃO ROQUE EM NOITE DE SERENATA, SANTOS EM DIA DE SERESTA
Felipe Angiolucci, Clarissa Reche.  São Paulo/Brasil. 15’. 2015
ANGOLA POA: MESTRE CHURRASCO
Marco A. Saretta Poglia e Magnólia Dobrovolski. Porto Alegre/Brasil. 40’. 2013
BATCHAN
Gabriel Carneiro. São Paulo/ Brasil. 15’. 2013
DISTINTO MATERNAL
Sylara Silvério. Pernambuco/Brasil. 16’. 2014

MOSTRA COMUNIDADES TRADICIONAIS
Auditório 2 Biblioteca Central / UFPE
Coordenação: Philipi Bandeira
Monitores:  Klever Silva

DAS NUVENS PRA BAIXO
Marco Antonio Gonçalves/ Eliska Altmann. Rio de janeiro/Brasil. 74’. 2015
FRAGMENTOS DE UMA CRONOLOGIA INERTE
Lucas Simões. Recife/Brasil. 8’. 2013
MINHA VIZINHA
Rita Bras. Brasil/RJ. 11’. 2014
O TIME DA CROA
Jorane Castro. Brasil. Pará/Brasil. 15’.  2015

MOSTRA IMAGENS E SONS DA CIDADE
Auditório 3 Biblioteca Central
Coordenação: Emiliano Dantas
Monitores:  Wenderson Lima e Suely Silva

UBUNTU: A ÁFRICA EM NATAL
Marlla Suéllen e Edson Soares. Pernambuco / Brasil. 15’. 2014
NAUFRÁGIO
Alex Vailati, Matias Godio. Santa Catarina/Brasil. 52’. 2014
MENINO DA GAMBOA
Pedro Perazzo e Rodrigo Luna. Salvador/ Brasil.  14’. 2014
HOMORRAGIA
Lorena Arouche. Olinda/Brasil. 7’. 2014
ILHADOS
Lucas Bonini e Wayner Tristão. Vila Velha / Brasil. 15’. 2015

Mostras Paralelas
Tarde: 14:00 – 17:00

MOSTRA IMAGENS E SONS DA CIDADE
Auditório 3 Biblioteca Central / UFPE
Coordenação: Emiliano Dantas
Monitores:  Klever Silva
JAKARTA DISORDER
Ascan Breuer. Vienna/ Austria. 87’.  2013
LENDAS URBANAS, CONTOS E ASSOMBRAÇÕES
Sheila Ramos da Silva. Céara/Brasil. 15’. 2013)
AVENIDA PRESIDENTE KENNEDY
Adalberto Oliveira. Olinda/ PE/ Brasil. 16’. 2014
E O ARRUADO?
Nina Defontaine. Pernambuco/Brasil. 14’. 2015
MOSTRA IMAGENS E SONS DA CIDADE
Auditório 2 Biblioteca Central / UFPE
Coordenação: Emiliano Dantas
Monitores: Rafaela Galindo
BANCA FORTE
Giovani Borba. Porto Alegre/Brasil. 55’. 2014
CHEIROS, MEMÓRIAS E SABERES
Nilson Almino de Freitas e Wellingta Maria V. Frota. Ceará/Brasil. 20’. 2014
HABITA-ME SE EM TI TRANSITO
Claudia Rangel. Minas Gerais/Brasil. 22’. 2014
HISTÓRIAS DE MANDINGA E PELEJA: AILTON PESTE
Leandro Wagner e Brundo de Souza. Pernambuco/Brasil. 4’. 2015

MOSTRA RITUAL E POVO DE TERREIRO
Auditório 1 Biblioteca Central
Coordenação: Camila Meneghini
Monitores: Thaiza Raiane
SANTO DE CASA
Maria Carolina. Salvador/ Brasil. 19’. 2015
BABÁ PAULO BRAZ - CONEXÃO IFÉ
Gustavo H. Almeida.  Recife/ Brasil. 62’. 2014
ENCANTARIAS
Rodrigo Sena e Julio Castro. Natal/ Brasil. 60’. 2015
MOSTRA OUTROS OLHARES
Auditório Antropologia
13 andar CFCH/UFPE
14:00 as 17:00
Coordenação: Glauco Machado
Monitores:  Gisele Mirella

BIRTHDATES
Arba Bekteshi, Albania / Tirana. 03’.  2015
DESCENDING WITH ANGELS
Christian Suhr, Watertown /Dinamarca. 75’.2013
AFTERMATH – THE SECOND FLOOD
Raphael Barth,Austria, Germany e Ireland. 82’, 2014

MOSTRA OUTROS OLHARES
Sala:  Aliança Francesa
Coordenação Adrien Lefevre
14:00 – 17:00
Monitores:  Renê Nascimento e Suely Silva

A MINHA TERRA É UMA ILHA
Antonio João Saraiva. Lisboa /Portugal. 75’. 2014
SWISS YODELLING - 30 YEARS LATE
Hugo Zemp. Watertown /Suiça. 71’. 2015
WHO WE REALLY ARE
Paulo Alberton. Australia / Brasil. 14’. 2015
Mostra Competitiva
Cinema da Fundação (Derby)
A BATALHA DO PASSINHO, O FILME
Emílio Domingos, Brasil. 73’. 2013
MÃES DO PINA
Leo Falcão, Brasil. 71’. 2015
THE CHILDREN
Arber Jashari, Kosovo. 15’. 2013
URBAN DWELLERS
Larissa Alves, Inglaterra. 19’ 43’’. 2013
ZADNJI PIONIRJI
 Daniela Rodrigues, Eslovênia. 10’ 35’’. 2012
Monitores:  Rayana Mendonça, Gabriel Góes, Bruno Florêncio, Gabriela Pimentel e Karla Fagundes.

Dia 19 de  Novembro

Fórum de Debates sobre Filme Etnográfico
Auditório de Antropologia
13 andar CFCH/UFPE
9:00 – 12:00
Coordenador:
Renato Athias
Expositores:
Rodrigo Lacerda
Jorane Castro
José Ribeiro
Carmen Rial
Alex Vailati
Este fórum será transmitido “on line”

Mostras Paralelas
14:00 – 17:00

MOSTRA OUTROS OLHARES
Auditório Antropologia
Coordenação: Glauco Machado
13 andar CFCH/UFPE
Monitores:  Samara, suely, gisele, mauricio, klever e cibele

THE ANTHROPOLOGIST
Daniel A. Miller. Garrison/ EUA. 81’. 2015
MI REINO NO ES DE ESTE MUNDO
Tatiana Font, Buenos Aires/Argentina, 89”, 2014

Mostra Competitiva
Cinema da Fundação (Derby)
18:00

ÓPERA CABOCLA
Adriano Barroso, Brasil. 26’. 2014
CANDEIAS
Felipe Wenceslau, Brasil. 13’. 2015
ENTRE MEMÓRIAS
Martha-Cecillia Dietrich, Peru. 34’. 2015
MEMÓRIAS RETOMADAS
João Martinho de Mendonça, Brasil. 22’. 2015
O FIO DO AZEITE
Catarina Alves Costa, Portugal. 30’. 2015
OLHO A'DENTRO - POVO CIGANO
Camila Camila, Brasil. 11’. 2014
SERRA DO CAXAMBU
Marcio Brito Neto, Brasil. 16’. 2015
Monitores: Rayana Mendonça, Gabriel Góes, Bruno Florêncio, Gabriela Pimentel e Karla Fagundes.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

MinC lança edital para digitalizar acervos sobre povos originários

Desta quarta-feira (28) até 10 de janeiro de 2016, pesquisadores envolvidos em projetos que têm como foco as culturas indígenas brasileiras poderão concorrer a até R$ 80 mil para disponilizar acervos na internet. Lançado pela Secretaria de Políticas Culturais (SPC) do Ministério da Cultura (MinC) e pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o edital de pesquisa-ação Povos Originários do Brasil tem por objetivo incentivar e apoiar a coleta, recuperação, conservação e disponibilização via internet, para o acesso público, de acervos de interesse científico e cultural de bens do patrimônio indígena brasileiro. 
Poderão participar do edital, que contará com recursos de cerca de R$ 1,4 milhão, provenientes do Fundo Nacional de Cultura (FNC), pesquisadores vinculados a instituições de caráter científico ou tecnológico, públicas ou privadas e sem fins lucrativos. 
Os recursos são destinados exclusivamente ao pagamento de bolsas de pesquisa com recursos de auxílio ao pesquisador. Os números de bolsas e categorias dependerão da demanda e da avaliação dos projetos apresentados. As propostas a serem apoiadas deverão ser executadas em um período de até 12 meses. 
Histórico
Como parte das políticas adotadas pelo MinC, a SPC lançou, em 2014, também em parceria com a UFPE, as bases para a construção de uma política nacional que contemple a digitalização de acervos da cultura. 
O primeiro edital teve como foco a Preservação e Acesso aos Bens do Patrimônio Afro-Brasileiro e recebeu 92 projetos - sendo que 24 deles foram selecionados, cobrindo um amplo espectro de acervos do patrimônio afro-brasileiro para o acesso público em meio digital. 
Os projetos selecionados alinham-se a ação desenvolvida pela SPC, em conjunto com a Universidade Federal de Goiás (UFG), para desenvolvimento de solução tecnológica para digitalização dos acervos. A previsão é que, até o final de 2015, esses projetos já estejam no ar para acesso da sociedade. 
Secretaria de Políticas Culturais
Ministério da Cultura

notícia original: http://www.cultura.gov.br/banner-2/-/asset_publisher/0u320bDyUU6Y/content/minc-lanca-edital-para-digitalizar-acervos-sobre-povos-originarios/10883


EDITAL: leia aqui

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

aba + 60


Os antropólogos e a antropologia na esfera pública no Brasil - cenários contemporâneos e políticas para o futuro A Associação Brasileira de Antropologia completa, em 2015, 60 anos de sua fundação. 

Como associação científica, tem desempenhado papel fundamental na presença da disciplina na esfera pública. A marca da forte atuação em defesa dos direitos de segmentos sociais com que os antropólogos vêm trabalhando tem distinguido a antropologia feita no Brasil diante das tradições construídas em outros contextos nacionais. O presente seminário visa celebrar a data em busca de uma visão prospectiva de futuro. A reflexão sobre os temas elencados, aqueles em que a ABA teve, até o momento, atuação pública relevante, se associará à necessária reflexão sobre o ensino da disciplina, bem como à presença da Associação em cenários internacionais. 


PROGRAMAÇÃO: 

19/08/2015 
8h30 – 10h30 | Abertura: A antropologia e a esfera pública no Brasil: ABA+60 Coordenador: Roque de Barros Laraia (UnB e Presidente de Honra da ABA) Expositores: Luis Roberto Cardoso de Oliveira (UnB e Ex-Presidente da ABA), Carmen Silvia de Moraes Rial (UFSC e Ex-Presidente da ABA), Carlos Alberto Caroso Soares (UFSB e Ex-Presidente da ABA) e Antonio Carlos de Souza Lima (MN/UFRJ e Presidente atual da ABA) 
10h30 – 12h30 | Sessão I: A antropologia e os direitos indígenas no Brasil Coordenador: João Pacheco de Oliveira (MN/UFRJ e Ex-Presidente da ABA) Expositores: Fabio Mura (UFPB e CAI/ABA), Carla Costa Teixeira (UnB e Diretora Regional da ABA) e Gersem José dos Santos Luciano Baniwa (UFAM) Debatedora: Deborah Macedo Duprat de Britto Pereira (6a CCR/PGR/MPF) 
14h – 16h |Sessão II - Antropologia e questões de gênero e sexualidade no Brasil: mais além da participação observante. Coordenador: Camilo Braz (UFG e Comitê Gênero e Sexualidade/ABA) Expositores: Adriana Piscitelli (PAGU-UNICAMP e Comitê Gênero e Sexualidade/ ABA), Lia Zanotta Machado (UnB e Comitê Gênero e Sexualidade/ABA) e Júlio Assis Simões (USP e Diretor Regional da ABA) Debatedor: Carlos Guilherme Octaviano do Valle (UFRN e Diretor Regional da ABA)
16h – 18h | Sessão III - O ensino de antropologia hoje e no futuro Coordenadora: Andréa de Souza Lobo (UnB e Tesoureira da ABA) Expositores: Bela Feldman-Bianco (Unicamp e Ex-Presidente da ABA), Russell Parry Scott (UFPE) e Estevão Palitot (UFPB) Debatedora: Miriam Pillar Grossi (UFSC e Ex-Presidente da ABA)

20/08/2015
8h30 – 10h30 | Sessão IV - Quilombos, Povos Tradicionais e Territórios: Estado, desenvolvimento e reprodução social da diferença Coordenador: Aderval Costa Filho (UFMG e Comitê Quilombos/ABA) Expositores: Andréa Luisa Zhouri Laschefski (UFMG e Assessoria Especial de Meio Ambiente/ABA), Osvaldo Martins de Oliveira (UFES e Comitê Quilombos/ABA) e Carlos Alexandre Barbosa Plínio dos Santos (UnB e Comitê Quilombos/ABA) Debatedora: Eliane Cantarino O’Dwyer (UFF e Assessoria Especial de Laudos/ABA)
10h30 – 12h30 | Sessão V: Terra, Território, Direitos e Mercados: movimentos sociais e modelos de desenvolvimento em transformação Coordenador: Stephen Grant Baynes (UnB e Comitê Povos e Comunidades Tradicionais/ABA) Expositores: Dayse Amâncio dos Santos Veras Freitas (UFPE), Raquel Oliveira Santos Teixeira (UFMG) e André Dumans Guedes (MN/UFRJ) Debatedor: Henyo Trindade Barretto Filho (IIEB e Assessoria Especial de Meio Ambiente/ABA)
14h – 16h |Sessão VI - Antropologia na esfera pública: patrimônios, museus, direitos e conhecimentos tradicionais. Coordenadora: Izabela Tamaso (UFG e Conselho Fiscal da ABA) Expositores: Marcos Alves de Sousa (MINC), Antonio Motta (UFPE e Comitê Editorial da ABA) e Letícia C. R. Vianna (INCTI/UnB/CNPq) Debatedora: Renata de Sá Gonçalves (UFF e Conselho Fiscal da ABA) 
16h – 18h | Sessão VII - Antropologia e Direitos Humanos no Brasil Coordenadora: Patrice Schuch (UFRGS e Diretora Regional da ABA) Expositores: Roberto Kant de Lima (UFF), Claudia Fonseca (UFRGS) e Ana Paula Mendes de Miranda (UFF) Debatedor: Daniel Schroeter Simião (UnB e Comissão de Ensino/ABA) 
18h – 19h | Apresentação da Carta de Brasília Alexandra Barbosa da Silva (UFPB e Assessoria Especial de Laudos/ABA)

21/08/2015 
8h30 – 10h30 | Sessão VIII - A antropologia diante dos desafios da interculturalidade Coordenadora: Jane Felipe Beltrão (UFPA e Vice-Presidente da ABA) Expositores: Maria Luiza Garnelo Pereira (Fiocruz/AM), Florencio Almeida Vaz Filho (UFOPA) e Tonico Benites (MN/UFRJ) Debatedora: Rita Gomes Nascimento (CGEEI/Secadi/MEC). 
10h30 – 12h30 | Sessão IX – A presença dos antropólogos na gestão pública Coordenador: Ricardo Verdum (PPGAS/UFSC e CAI/ABA) Expositores: Marco Paulo Fróes Schettino (Ministério Federal), Jaime Siqueira (Funai) e Roberto Alves de Almeida (Incra) Debatedor: Cristhian Teófilo da Silva (Ceppac/UnB) 
12h30 – 13h30 | Comentários Finais Otávio Velho (MN/UFRJ e SBPC)

sexta-feira, 31 de julho de 2015

batismo do milho



Ritual de Batismo do Milho durante o Encontro de Xeramois 2015, na aldeia Tekoa Pyau/Jaraguá, São Paulo.
Direção e Fotografia: Eduardo Duwe
Edição: Douglas B. Silva

quarta-feira, 15 de julho de 2015

o sonho do pajé

A equipe do Caminhos da Reportagem foi a primeira emissora de TV a gravar na aldeia dos Huni Kuin, no Jordão (AC). Mas os indígenas de uma parte distante do Acre já haviam visto uma câmera de vídeo e alguns já sabiam captar e editar imagens. Com ONGs, pesquisadores do Jardim Botânico (RJ), editores de livro e estilistas de moda, os Huni Kuin estão deixando a sua história registrada em videogames, no Livro da Cura, em coleção de grifes de moda. E o que ganham com isso?
Para os que permanecem na aldeia, a troca de matéria-prima por instalação de energia solar e tecnologia é suficiente para fechar negócio com o homem branco. Já os indígenas que saem para estudar fora da aldeia consideram que o maior problema está na falta de uma lei que proteja a arte das etnias.
Vulneráveis à sedução do homem branco, os indígenas do Acre temem o esquecimento das tradições e, ao mesmo tempo, a impossibilidade da sobrevivência das aldeias, sempre na mira de agricultores, empreiteiros e empresários espertinhos.
Roteiro e direção: Bianca Vasconcellos
Reportagem: Aline Beckstein
Produção: Aline Beckstein, Luana Ibelli, Thaís Rosa, Vera Barroso
Estagiárias de produção: Monique Amorim, Pamela Santos
Imagens: Alexandre Nascimento, Eduardo Viné Boldt, Gabriel Penchel
Auxiliares: Caio Araújo, Edivan Viana, Maurício Aurélio, Wladimir Ortega
Apoio operacional: Rafael Costa, Paulo Cobucci, Carlos Gigliotti, Guilherme Scarazatto, Antonio Blanes, Priscila Stibich, Leticia Botelho, Leandro Camargo
Edição de imagens: Jéssica Saccól, Rodger Kenzo
Finalização: Rodger Kenzo

domingo, 12 de julho de 2015

além de natureza e cultura

Tradução de Bruno Ribeiro do texto original:

DESCOLA, Philippe. ‘Beyond Nature and Culture’, Proceedings of the British Academy, volume 139, pp. 137-155. © British Academy, 2006.
"O propósito declarado de “Par-delà nature et culture” é, como indica o título, desautorizar a ideia de que “natureza” e “cultura” devem ser duas categorias universalmente apartadas, consideração que só faria sentido aos Modernos e, mesmo entre eles, apenas a partir da metade do século XVII. Para além das evidentes implicações no estudo de outras sociedades, essa hipótese, caso confirmada, permitiria repensar as metodologias e objetivos da própria antropologia (Descola, 2005, p. 13), cujas bases estariam, nesse sentido, viciadas. " (comentário de Luiz César de Sá Júnior Universidade Federal do Rio de Janeiro)




Para ler a tradução: http://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/tessituras/article/download/5620/4120

sexta-feira, 10 de julho de 2015

agenciamentos

Projeto de pesquisa audiovisual de Angela Melitopoulos e Maurizio Lazzarato, "Agenciamentos" faz um passeio esquizofrênico pelas novas formulações propostas por Félix Guattari para se pensar os sujeitos, as sociedades e as subjetividades. Dividido em quatro partes, o projeto traz imagens raras de Félix .



quarta-feira, 13 de maio de 2015

minha luta pelo meu povo: no coração da tribo dos Ticunas, suas histórias e sua cultura

ticunaOs ticunas integram o mais numeroso grupo indígena da Amazônia, que é distribuído por três países: Brasil (em maior número), Peru e Colômbia. No livro Minha luta pelo meu povo (Eduff, 152p.), a pesquisadora Marília Facó Soares apresenta a narrativa do ticuna Ngematücü ou Pedro Inácio Pinheiro que conduz o leitor por um universo bem brasileiro e, antes, inimaginável. A obra revela, em diferentes escalas de tempo e espaço, um curioso percurso histórico e contempla variações linguísticas dos povos de mesma origem e que falam a mesma língua.

A narração de Ngematücü, realizada em 1983, mereceu uma transcrição fonética e resulta de um processo colaborativo entre outros ticunas. Editado em versão bilíngue em ticuna e em português, em páginas lado a lado o livro respeita a retórica indígena e procura mostrar a beleza do texto em ticuna, além de ser apresentado de forma a possibilitar a sua utilização nas escolas locais. Desta forma, constitui-se como material de extrema relevância para a documentação e preservação das memórias histórica e cultural dos habitantes da região e, também, como subsídio à continuidade do projeto Línguas da Amazônia Brasileira: Variação, Cognição e estudos de Fonologia, Gramática e História, sob a coordenação da autora, professora Marília Facó Soares.

Complementam o livro, fotos, mapas e ilustrações representativos desse universo e de sua cultura material em uso ou abrigados em museus. Entre as fotos, muitas feitas há mais de 60 anos por Curt Nimuendajú, etnólogo alemão que conviveu com variadas etnias indígenas, de diversas regiões do Brasil.

Trecho Agora, existe para mim a minha idade, trinta e oito anos, mas naquele tempo, antigamente, eu primeiro, na minha infância, não tinha muitas coisas, nem existia conselho, meu pai mesmo nunca deu conselho para mim. Então, além disso, muitas vezes eu fiquei órfão, desde que eu era criança era órfão, desde cinco anos de idade mesmo fiquei órfão, eu. Então, naquela época, assim mesmo, quando fiquei órfão, para o meio dos homens eu fui, para o meio desses brancos eu fui?. Pedro Inácio Pinheiro (Ngematücü)

Opinião Este livro leva-nos a uma fascinante aventura intelectual, que pode ser vivida por todos os leitores, mesmo aqueles que não conhecem a língua e a cultura ticuna: de um lado, faz-nos mergulhar em camadas da História do Brasil para as quais não se costuma dar importância, como se elas não existissem; de outro, faz-nos entrar no universo linguístico ticuna.? José Luiz Fiorin, Universidade de São Paulo (USP).

Sobre a autora Marília Facó Soares iniciou suas pesquisas linguísticas na Amazônia, nos anos 1980. Uma das primeiras aldeias em que realizou trabalho de campo foi a Vendaval, no Amazonas. Naquela época, pesquisava para sua tese de doutorado na área de Linguística pela Unicamp sobre a língua Ticuna, falada por um dos maiores grupos indígenas do Brasil. Atualmente, é professora associada do Museu  Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Suas atividades também incluem, há mais de dez anos, o campo da educação, como assessora de projetos voltados diretamente para populações indígenas. Coordenou e executou trabalhos linguísticos voltados para inventários e acervos de pesquisa e recebeu, no Brasil, prêmios por projetos sobre línguas indígenas. Além de prosseguir com suas investigações sobre os ticunas, conhece outras línguas indígenas, em especial das fa mílias tupi-guarani e pano.

 

Para comprar o livro na loja virtual da EdUFF:

 http://www.editoradauff.com.br/ciencias-humanas/313-tchoru-duuuuguca-tchanu-minha-luta-pelo-meu-povo-9788522810390.html

sexta-feira, 17 de abril de 2015

quem governa a invasão biológica? um problema para a antropologia

clique aqui para acessar a publicação original da Revista Novos Debates.

Câmara Municipal de Santana do Livramento, RS (maio de 2014). Crédito: Caetano Sordi

Caetano Sordi

Mestre e doutorando em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista CNPq

O bioma Pampa, também conhecido como Campos Sulinos ou Campanha, ocupa apenas 2,07% do território nacional, mas possui importantes implicações identitárias para o sul do país. Apropriado economicamente desde fins do século XVI pelo pastoreio extensivo, é também um das paisagens naturais mais ameaçadas do Brasil, pressionado que está pelo torniquete formado pela monocultura de grãos, o reflorestamento industrial, a degradação do solo e outras externalidades negativas da ação antrópica. Apesar da sua riqueza cultural e natural, o bioma pampa é contemplado com apenas uma Unidade de Conservação (UC) Federal, a Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã, localizada entre os municípios de Santana do Livramento, Quaraí, Rosário do Sul e Alegrete, todos eles no Rio Grande do Sul e relativamente dependentes da pecuária de corte. Recentemente, esta APA tem enfrentado um processo de invasão biológica bastante sério, protagonizado por suídeos asselvajados da espécie Sus scrofa scrofa (javali europeu) e seus híbridos com porcos domésticos, conhecidos como javaporcos. 

Embora não se tenha noção clara de como este processo foi desencadeado, se aceita a tese de que ele é fruto de uma combinação entre migração espontânea, contrabando e criação ilegal (Debert e Scherer 2007), favorecido por uma situação de fronteira seca. Espécimes de javali europeu foram trazidos para o Uruguai ainda no início do século XX, encontrando naquele país um ambiente propício para sua dispersão, sem inimigos naturais e com uma grande variedade de recursos para seu abrigo e sobrevivência (Lombardi et al. 2007). Em algum momento das últimas três décadas, espécimes desta linhagem cruzaram a fronteira com o Brasil, colonizando a área onde se encontra a APA do Ibirapuitã. Trago este exemplo específico, que corresponde ao objeto etnográfico da minha pesquisa de doutorado em andamento, para discutir o grave problema da invasão biológica no Brasil, questão ambiental de primeira ordem que, apesar de muito debatida entre biólogos, agrônomos e gestores ambientais, tem despertado pouco interesse dos cientistas sociais brasileiros, salvo algumas exceções (Oliveira e Machado 2009; Bevilaqua 2013).

Dentro da biologia, não há consenso sobre a melhor maneira de se definir a invasão biológica, embora ela seja reconhecida por organismos internacionais como a segunda maior ameaça à biodiversidade do planeta, perdendo apenas para a destruição humana dos ambientes nativos. De acordo com a definição do Ministério do Meio Ambiente, espécies exóticas invasoras são organismos que, “introduzidos fora da sua área de distribuição natural, ameaçam ecossistemas, habitats ou outras espécies” (Brasil 2006: 5). Em si mesma, a migração de espécies biológicas de uma região a outra do globo não é algo nocivo. Ao contrário, a movimentação de organismos é um dos fenômenos que determinaram e continuam a determinar a história e a polivalência da vida na Terra (Crosby 2011; Wilson 2012). No entanto, a intensa mobilidade humana dos últimos quatro séculos acelerou a dispersão de organismos a padrões nunca vistos, alterando em profundidade os ciclos de inúmeros ecossistemas ao redor do globo.

Além do javali europeu, objeto de uma recente Instrução Normativa do IBAMA que permite o seu manejo através de meios cinegéticos (IN 03/2013), outras espécies invasoras emblemáticas no Brasil são o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), a árvore pínus (Pinus sp.) e a abelha-africana (Apis mellifera), introduzida na década de 1950 no interior de São Paulo e hoje dispersa por todo continente americano. No pampa, grassa, desde metade do século passado, o capim-annoni (Eragrostis planaNees), gramínea de origem africana introduzida no Rio Grande do Sul por um pecuarista cujo sobrenome batiza a vulgata da planta. Mais recentemente, o setor agropecuário brasileiro entrou em polvorosa devido à dispersão da lagarta Helicoverpa armigera, responsável por perdas na lavoura de soja.

Alguém poderia se perguntar o que cabe aos antropólogos discutir em relação a este problema, aparentemente tão restrito ao domínio de biólogos, ecólogos, gestores sanitários e ambientais. Um breve recorrido sobre a literatura a respeito do assunto nos fornece algumas pistas: em primeiro lugar, há uma controvérsia sobre o modo com que a comunidade científica vem pensando a invasão biológica, dada a proliferação de metáforas bélicas para se referir a ela (Sagoff 1999; Colautti e Mc Isaac 2004). Há, portanto, uma importante discussão sobre a epistemologia ambiental da invasão biológica, na qual os antropólogos poderiam contribuir.

Em segundo lugar, a invasão biológica coloca problemas políticos que dizem respeito à sobreposição de prerrogativas entre órgãos de distintas áreas e níveis de governo (Oliveira e Machado 2009), o que sugere problemas para a antropologia do Estado e da política. Por fim, uma última questão de antropologia jurídica diz respeito ao monopólio do Estado sobre a gestão do território e seus recursos naturais, visto se tratar de agentes bióticos que circulam à revelia das fronteiras e ordenamentos jurídicos nacionais (Bevilaqua, 2013) e, muitas vezes, da intenção de quem os transporta.

Há, contudo, um ponto bastante importante para a antropologia que o exemplo do javali traz à tona: trata-se da relação entre o doméstico e o selvagem, traduzida pela questão do javaporco. Segundo Digard (2012), o debate ambiental contemporâneo enfatiza pouco a biodiversidade doméstica, considerada pelo autor como importante estoque de recursos genéticos perpetuados pela humanidade ao longo do tempo. Esta negligência com o aspecto doméstico da biodiversidade, segundo Digard, seria fruto de uma construção simbólica de longa duração que associa domesticação com degenerescência, isto é, com uma perda de caracteres vigorosos dos espécimes originais. Ora, uma das principais consternações dos gestores ambientais da APA do Ibirapuitã e das autoridades da região são os cruzamentos entre porcos ferais e porcos domésticos, sejam estes cruzamentos espontâneos ou humanamente induzidos. De fato, as varas de porcos que circulam pelos campos da UC são populações híbridas, o que sugere haver certo comércio reprodutivo entre o Sus scrofa scrofa e o Sus scrofa domesticus. O problema se agrava pelo fato de ambos serem linhagens do mesmo táxon, o Sus scrofa, o que introduz aqui uma confusão classificatória entre o doméstico, o selvagem e o feralizado.

Os cruzamentos seriam favorecidos pela concepção, bastante frequente na região, de que o encontro entre porcos domésticos e porcos ferais tornaria os leitões mais fortes e robustos, aprimorando sua rusticidade, em consonância, portanto, com a percepção de Digard (2012). Ato contínuo, esta tolerância para com a hibridização catalisaria ainda mais o processo de dispersão, agravando a invasão biológica. Da mesma maneira, o cachaço – termo local para o suíno macho não castrado, feral ou domesticado – carrega consigo algumas projeções de masculinidade próprias do ambiente cultural fronteiriço. Jocosamente, atribui-se a estes machos solitários a capacidade de seduzir as porcas domésticas e atraí-las para a vida selvagem, como se fora um andarilho galanteador.

Outra dimensão importante a ser considerada é a prevalência da predação de cordeiros como principal queixa dos produtores rurais contra os javalis nesta região. Os municípios da zona da APA do Ibirapuitã respondem por parte considerável da produção de ovinos no Brasil, que tem na Campanha Gaúcha uma de suas bases mais tradicionais. E, ao contrário de outras zonas afetadas pelo javali, onde predominam os danos à lavoura, o consumo de borregos recém-nascidos é a grande consternação local, o que tem se revertido em frequentes analogias entre o javali e o ladrão de gado, com claras conotações morais.

Durante uma audiência pública sobre a questão dos javalis, na Câmara Municipal de Santana do Livramento, realizada no início de maio de 2014, uma enorme cabeça de javali velava totemicamente pelas manifestações dos oradores, produzindo um impacto visual nada desprezível. Seu abatedor, presente à reunião, relatou que o “bichinho” havia matado, em uma propriedade, setenta cordeiros e cinco ovelhas, número corroborado por outros ovinocultores presentes. Posteriormente, outro ovinocultor, bastante afetado pela “praga”, desfiou-me a lista dos tipos penais que, em sua opinião, poderiam ser imputados ao javali, dentre os quais abigeato e ocultação de cadáver.

Em linhas gerais, a invasão biológica se impõe como um problema importante de ser pensado pelos antropólogos devido às suas reverberações simbólicas, socioeconômicas e políticas, em paralelo à dimensão ambiental. Para uma disciplina cada vez mais acostumada a trabalhar com as noções de fluxoe linha (Ingold 2011), creio que se trata de um campo de estudos bastante profícuo para se pensar as consequências imponderáveis das próprias linhas de comércio e fluxos demográficos que tecemos ao redor do globo, muitas delas carregando componentes impensados ou possivelmente nocivos, como é caso das espécies invasoras.


Referências bibliográficas

BEVILAQUA, Cimea. 2013. “Espécies Invasoras e fronteiras nacionais: uma reflexão sobre os limites do Estado”.  Anthropologicas, 24(1): 104-123.

BRASIL. 2006. Espécies Exóticas Invasoras: Situação Brasileira. Brasília: Ministério do Meio Ambiente/Secretaria de Biodiversidade e Florestas.

COLAUTTI, Robert. MC ISAAC, Hugh. 2004. “A neutral terminology to define ‘invasive’ species”. Diversity and Distributions 10: 135-141.

CROSBY, Alfred W. 2011. Imperialismo ecológico: a expansão biológica da Europa 900-1900. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

DEBERT, André Jean. SCHERER, Scherezino. 2007. “O javali asselvajado: ocorrência e manejo da espécie no Brasil”. Natureza e Conservação, 5(2): 31-44.

DIGARD, Jean-Pierre. 2012. “A biodiversidade doméstica, uma dimensão desconhecida da biodiversidade animal”. In: Anuário Antropológico, 2011(II): 205-226.

INGOLD, Tim. 2011. Being Alive: essays on movement, knowledge and perception. Routledge: Londres.

LOMBARDI, R. BERRINI, R. ACHAVAL,R. WAYSON, C. 2007. El Jabalí en el Uruguay.Montevideo: Centro Interdisciplinario para el Desarollo.

OLIVEIRA, Anderson Eduardo da Silva. MACHADO, Carlos José.  2009. “Quem é quem diante da presença de espécies exóticas no Brasil? Uma leitura do arcabouço legal-institucional voltada para a formulação de uma política pública nacional”. Ambiente e Sociedade, 13(2): 273-387.

SAGOFF, Mark. 1999. “What’s wrong with exotic species?”. Report from the Institute for Philosophy and Public Policy, 19(4): 16-23.

WILSON, Edward O. 2012. Diversidade da vida. São Paulo: Companhia das Letras.

 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Õkãpomaɨ

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Õkãpomaɨ, denominam os Yanomami, são aqueles que desafiam os riscos de uma viagem por caminhos desconhecidos para obter informações estratégicas sobre o inimigo, detectar a sua aproximação e prever eventuais ataques. Na nova luta que se trava na linha de frente do contato com o mundo dos brancos, essa é a estratégia dos Yanomami de hoje para defender o seu território, a maior Terra Indígena do país e uma das maiores áreas de floresta protegida do Brasil.

Em outubro de 2014 uma expedição percorreu mais de 50km na borda leste da Terra Indígena Yanomami, estado de Roraima, buscando sinais de degradação e pressão ambiental promovidas por invasores não-indígenas. A viagem foi composta por oito indígenas Yanomami, dois indigenistas do Instituto Socioambiental (ISA) e dois NINJAS, responsáveis pela documentação e registro da empreitada.

Neste especial criado conjuntamente pela equipe do ISA e do Mídia Ninja você vai encontrar um vídeo inédito, galerias de imagens que mostram o dia a dia da Expedição Õkãpomaɨ, informações atuais sobre o povo Yanomami, além de uma linha da tempo com a história de contato deste povo, histórico das expedições anteriores, e o diário de bordo com relatos dos momentos mais marcantes desta jornada.

http://expedicaoyanomami.socioambiental.org/

sexta-feira, 10 de abril de 2015

bacharelado em antropologia da unb recebe nota máxima

Textos: UnB Agência. Fotos: Isa Lima/UnB Agência.

Ana Beatriz Machado- Da Secretaria de Comunicação da UnB

O Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Brasília conquistou mais uma nota 5 em avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação (MEC). Dessa vez, com o bacharelado em Antropologia. A visita da equipe técnica ocorreu no final de março.

Segundo o professor Guilherme Sá, coordenador da graduação, a avaliação para renovar o reconhecimento do curso promovida pelo MEC é muito abrangente. Contempla questões que vão desde as condições físicas de infraestrutura até a minuciosa análise qualitativa a respeito do conteúdo programático e a qualificação do corpo docente.

O professor explica que o curso de Antropologia é historicamente bem organizado, e isso contribuiu para que alcançasse essa menção. “Temos atualmente uma boa estrutura física, com bons laboratórios de pesquisa, um corpo técnico-administrativo envolvido com as questões do curso, além de um corpo docente qualificado com grande experiência didática e de pesquisa”, afirma.

No final do ano passado, o curso de bacharelado em Ciências Sociais também obteve a nota máxima na mesma análise. “Os cursos vinculados ao ICS são bem avaliados; isso comprova o protagonismo das Ciências Sociais na UnB, uma universidade que nasceu de um compromisso explícito para relacionar a educação às questões e demandas emergentes dos coletivos que compõem o povo brasileiro”, pondera Sá.

O professor ainda ressalta a importância da conquista para o departamento. “O grau máximo concedido ao curso atesta que estamos no caminho certo ao aliar a excelência já notória de nossa pós-graduação à formação de profissionais altamente qualificados egressos de nossa graduação”.

terça-feira, 7 de abril de 2015

fios da vida

imageTodos os anos, adultos procuram os arquivos da Fundação CASA (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente, São Paulo, Brasil) em busca de prontuários referentes ao período em que, quando crianças e/ou adolescentes, passaram por abrigos públicos. O que faz com que esses adultos queiram recuperar os fios de suas vidas? Entre 2009 e 2013, foram analisados mais de 50 prontuários e realizadas entrevistas com alguns homens que estiveram, entre 1947 e 1974, no Instituto Agrícola de Menores de Batatais (IAMB/ SP). Registros; verdades (?); o direito à memória biográfica; histórias de "famílias abandonadas"; relatos de trabalhos e cuidados; laços atuais entre "ex-menores"; um diálogo entre fotos antigas e uma visita às atuais ruínas do IAMB, guiada por um dos entrevistados, compõem este documentário.

Assista aqui ao documentário:

 http://www.lisa.usp.br/producao/paginasvideos/fiosdavida.html

sexta-feira, 3 de abril de 2015

série vídeo aulas Estado e Povos indígenas

“Série de videoaulas produzidas a partir do acervo do curso de formação política de lideranças indígenas, realizado pelo Centro Indígena de Estudos e Pesquisa (Cinep), pelo Laced/Museu Nacional/UFRJ, pela Universidade de Brasília (UnB) e pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IIEB). Destina-se a subsidiar a formação política e intelectual de lideranças, pesquisadores e estudantes indígenas no ensino superior, com vistas a fins práticos e reflexivos. A série procura, para tanto, fornecer ao público indígena um olhar crítico sobre o Brasil e as instituições políticas de países moldados pela colonização europeia. Nossa intenção é que esse olhar seja compatível à perspectiva de seu pertencimento diferenciado ao Estado nacional brasileiro como cidadãos indígenas, e lhes permita criticar e produzir conhecimento alternativo, por meio de seus próprios interesses e processos de pesquisa. ” (LACED)

Série de vídeo aulas para a formação política e jurídica de lideranças, professores e estudantes indígenas:

DVD 1 - Direito Internacional
DVD 2 - Institucionalização da participação e do controle social (comitês, conferências e conselhos)
DVD 3 - Índios nas cidades
DVD 4 - Povos indígenas e o Estado no Brasil: 1960/2000
DVD 5 - Acabou a tutela?
DVD 6 - Origem e transformação dos preconceitos antí-indígena e da política indigenista Brasil
DVD 7 - Do SPI à FUNAI: a ambiguidade da tutela
DVD 8 - Conceitos chaves e instrumento de entendimento do funcionamento do Estado brasileiro
DVD 9 - Conceitos chaves e instrumentos de entendimento da realidade sócio política: a visão do Direito Constitucional
DVD 10 - Movimentos indígenas, as estratégias e as lutas na conquista de direitos
DVD 11 - Desafios da educação escolar indígena
DVD 12 - Saúde indígena
DVD 13 - Política indigenista: a reestruturação da FUNAI
DVD 14 - Desafios etnoambientais

Acesse o material aqui:

http://laced.etc.br/site/atividades/video-aulas/o-estado-e-os-povos-indigenas-no-brasil/

domingo, 29 de março de 2015

o tabu do incesto e a bioantropologia

José Francisco Carminatti Wencenlau, André Strauss Rev. Cadernos de Campo v. 21, n. 21 (2012)
O debate acerca do tabu do incesto tem sido amplamente discutido até mesmo antes da fundação da antropologia como disciplina. Porém, foi nessa área do conhecimento que o tema adquiriu atenção acentuada, em especial após a publicação do renomado trabalho de Claude Lévi--Strauss, As estruturas elementares do parentesco, em 1949. Grande parte das escolas de ciências sociais brasileiras toma o assunto como encerrado por esse autor, contudo, isso está longe de ser verdade. Neste artigo procuramos reacender o debate com o estruturalismo lévi-straussiano e a sua principal teoria a respeito da proibição do incesto – a teoria da aliança– através do levantamento de diversos estudos que de algum modo dialoguem com a obra desse autor. Deste modo, com especial auxílio dos trabalhos de fronteira entre a biologia e a antropologia – que muitas vezes não chegam ao contato dos cientistas sociais – desejamos reavivar essa reflexão no circulo acadêmico brasileiro.

Para ler online: http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/53904/57848

Para baixar cópia do artigo em seu computador: http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/download/53904/57848

quarta-feira, 25 de março de 2015

regulamentação da profissão de arqueólogo foi aprovada no senado, agora segue para a câmara

Via Agência Senado

A regulamentação da profissão de arqueólogo foi aprovada nesta quarta-feira (25) pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS). O projeto torna o exercício da profissão de arqueólogo privativo dos diplomados em bacharelado em Arqueologia no país e no exterior (neste caso, desde que o título tenha sido revalidado no país); dos pós-graduados em área de concentração em Arqueologia, com monografia ou tese e com pelo menos dois anos consecutivos de atividades científicas no campo profissional da Arqueologia. A matéria é terminativa na comissão. Ou seja, seguirá diretamente para análise da Câmara dos Deputados, a menos que haja requerimento expresso para que também seja votada pelo Plenário do Senado.

De autoria da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), o projeto estabelece que também poderão exercer a profissão os diplomados em outros cursos de nível superior que, na data da publicação da futura lei, contem com pelo menos cinco anos consecutivos — ou dez anos intercalados — de exercício de atividades científicas no campo profissional da Arqueologia; e os que tenham concluído curso de especialização na área e contem com pelo menos três anos consecutivos de atividades nesse campo profissional.

As senadoras Lúcia Vânia (PSDB-GO) e Marta Suplicy (PT-SP) comemoraram a aprovação da proposta. Lúcia Vânia afirmou que a nova regulamentação vai favorecer as pesquisas arqueológicas no país e fortalecer o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Já Marta ressaltou que a profissão tem uma importância extraordinária na pesquisa e catalogação da cultura brasileira.

— O povo não tem futuro se não tem seu passado conhecido e privilegiado — disse.

O relator, senador Waldermir Moka (PMDB-MS), disse que é evidente, pela importância e complexidade, que as atividades de pesquisa arqueológica exigem do profissional uma habilitação específica, agora reconhecida com a aprovação da proposta.

Ele apresentou emenda para determinar que a condição de arqueólogo deve ser comprovada “para a prática de assinatura de contratos, termos de posse em cargo público, pagamento de tributos devidos pelo exercício da profissão e desempenho de quaisquer funções a ela inerentes”.

Atribuições

A proposta estabelece como atribuições do arqueólogo, entre outras: planejar, organizar, administrar, dirigir e supervisionar as atividades de pesquisa arqueológica; identificar, registrar, prospectar, escavar e proceder ao levantamento de sítios arqueológicos; executar serviços de análise, classificação, interpretação e informação científica de interesse arqueológico; chefiar, supervisionar e administrar os setores de arqueologia nas instituições governamentais de administração pública direta e indireta, bem como em órgãos particulares; prestar serviços de consultoria e assessoramento na área de Arqueologia; realizar perícias destinadas a apurar o valor científico e cultural de bens de interesse arqueológico, assim como sua autenticidade; coordenar, supervisionar e chefiar projetos e programas na área de Arqueologia.

O projeto dispõe ainda sobre responsabilidades em pesquisa de campo e estabelece que em toda expedição ou missão estrangeira de Arqueologia em território nacional será obrigatória a presença de um número de arqueólogos brasileiros que corresponda, pelo menos, “à metade do número de arqueólogos estrangeiros nela atuantes”.

Para Vanessa Grazziotin, a regulamentação da profissão permitirá “a identificação dos profissionais competentes, facilitando, para a administração pública e para a iniciativa privada, a contratação do profissional certo para aquele projeto, programa ou exploração específica”.

Segundo a autora da proposição, o Brasil tem atualmente mais de 6 mil sítios arqueológicos identificados.

“Não podemos entregar ao abandono, à incompetência, aos furtos e à deterioração esses valores inestimáveis, fundamentais para o futuro do conhecimento e da cultura nacionais. Caso isso aconteça, iremos lamentar muito no futuro a perda de referências históricas importantes, com redução do potencial turístico e deterioração de nosso patrimônio comum, que, bem explorado, pode gerar emprego e renda para nossos cidadãos”, argumenta a senadora.

terça-feira, 24 de março de 2015

os sentidos do sacrifício na religiosidade afro-brasileira

cravo-mario-netoO NER vem acompanhando e debatendo um projeto de lei que tramita no legislativo gaúcho e pretende submeter os rituais afro-brasileiros que envolvem animais às mesmas regras que presidem o chamado "abate humanitário". José Carlos dos Anjos, professor do Departamento de Sociologia da UFRGS, desenvolve sua crítica a tal concepção. Foto: Mario Cravo Neto

Olhando-se para a religiosidade afro-brasileira pelo mesmo ângulo que se promoveu o tráfico de milhões de africanos através do atlântico na condição de escravizados e se aniquilou milenares culturas indígenas nas Américas, se pode, sim, concluir que são bárbaros os rituais de sacrifícios de animais realizados nos terreiros. O olhar arrogante que de forma intolerante vem, há mais de um século, policiando, segregando e confinando na temeridade uma forma milenar de religiosidade tem mostrado que pode decretar o fechamento definitivo das casas de religião afro-brasileira do país. Decretar que não é mais legal o sacrifício religioso de animais é o mesmo que banir o culto aos orixás por puro preconceito.
Sob a mesma arrogância colonialista com que no passado se procedeu ao tráfico, escravização, catequese forçada, os religiosos afro-brasileiros estão, hoje, sendo acuados. Serão, os religiosos afro-brasileiros, levados a acatar o que a cultura dominantemente ocidental define como sendo o sentido das coisas do mundo, as sensibilidades em jogo no cosmo? O sentido dos acontecimentos cósmicos podem ser decididos, por decreto, a partir da sensibilidade de uma única cultura? As certezas imperativas terão de ser sempre e em toda a parte aquelas que a tradicional cultura ocidental sanciona? Os sentidos ocidentais de verdade e as sensibilidades ocidentais em relação ao sofrimento, ao que é humano, o belo, o divino, continuarão a ditar a ordem do mundo sem a menor abertura em relação a possibilidade de que essa outra cultura – a afro-brasileira – tenha reconhecida a condição de “maioridade” para dizer o que é válido para ela, a sua verdade humana, natural e cósmica?
O sacrifício de animais nos terreiros dá-se numa forma milenar de cultura que não separa o divino, o humano e o natural nem mesmo no sofrimento. No sacrifício há uma única pessoalidade em metamorfose e renascimento. Por estarem congregados numa unidade, o sacrifício é um momento especial de fusão de destinos e renascimentos em uma unidade simultaneamente animal, humana e divina. O sacrifício só ocorre na medida e quando não há a recusa das três partes que se entregam ao acontecimento cósmico. As acuradas sensibilidades desenvolvidas na religião para o cuidado do animal não podem ser substituídas por técnicas veterinárias, porque aquelas são mais antigas, sensíveis, mais sofisticadas e sobretudo, abertas a insondáveis dimensões cósmicas.
Porque uma religião milenar deveria se curvar ao culto moderno da ciência quando ela carrega suas próprias ciências e seu sentido de verdades que se situam para além das questões que técnicas modernas podem apreciar? Quando se coloca a religiosidade afro-brasileira diante de exigências de comprovações veterinárias de não-sofrimento animal, se poderia perguntar ainda, “porque algumas ciências devem ser levadas em conta e outras não?” Outras disciplinas acadêmicas, com um século de proximidade em relação à religiosidade afro-brasileira, como é o caso da antropologia e da sociologia, em nenhuma das suas expressões e controvérsias, desqualifica o sacrifício animal na religiosidade afro-brasileira como forma de crueldade. Essas outras disciplinas não deveriam ser levadas em conta nesse debate atual? Internacionalmente reconhecidos clássicos das ciências sociais nacionais (como Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Edson Carneiro) e estrangeiros (como Juana Elbein dos Santos, Pierre Fatumbi Verger, Roger Bastide) em nenhum momento de suas vastas obras renegaram o sacrifício animal na religiosidade afro-brasileira. Pelo contrário, todos estiveram próximos do lapidar enunciado de Bastide:
"A filosofia do candomblé não é uma filosofia bárbara,e sim um pensamento sutil que ainda não foi decifrado" (Bastide, 1978).
Um pouco menos de arrogância deveria levar os não-religiosos afro-brasileiros, interessados no tema, a respeitosamente, diante da diferente relação cósmica, perscrutarem a lembrança de que todo o nascimento dá-se no e pelo sangue – em seus múltiplos sentidos cosmológicos. O ritual poderia, para os de fora, situar mais do que uma memória da condição humana; poderia monumentalizar uma esperança. A esperança do renascimento humano menos conflituoso e mais imerso na natureza – essa lembrança sempre renovada nos sacrifícios da religiosidade afro-brasileira. Sem proselitismo, a religiosidade afro-brasileira não pede que a sigam, apenas respeita e se dá ao respeito dos que não comungam dos mesmos valores. Com essa postura se abre ao diálogo.
Referência
BASTIDE, Roger- O Candomblé da Bahia - São Paulo, Nacional, 1978.

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Originalmente publicado em: http://www.ufrgs.br/ner/index.php/estante/visoes-a-posicoes/69-os-sentidos-do-sacrificio-na-religiosidade-afro-brasileira